Archives for the month of: Maio, 2014

sexo_anal-09

Ó ambivalência. Eles às vezes querem, nós às vezes até queremos e, provavelmente, às primeiras tentativas dissemos “ai, tira, tira, tira!” (e talvez até tenhamos ficado só por essas). Na verdade, parte das mulheres que experimenta sexo anal não o repete por ser demasiado doloroso. Apesar de todas as fantasias que o canal 18 e o xHamster impregnaram nas mentes geradas nos anos 80, a prática de sexo anal tem mais que se lhe diga do que “Anda cá filha/Quero tanto levar no cu!”. Meros devaneios. As primeiras experiências de sexo anal, caso seja possível tolerar a dor, parecem assemelhar-se ao ato de defecar. Francamente, por momentos, até parece que é efetivamente isso que está a acontecer – incidente cujo desfecho possível é o da expressão de um sonoro “Sai, sai, SAAAAI!” Bom, ultrapassando a dor lancinante e a perceção de descontrolo esfincteriano há, ainda, que suplantar o medo da porcaria. Pois é, todos sabemos o que lá vamos encontrar. Cocó. Merda, fezes, como queiram. (Não deixa de ser espantoso que sejamos tão repelidos por encontrá-lo nos diversos contextos das nossas vidas, nas nossas solas ou casas-de-banho públicas, e tão interessados pelo seu canal de excreção). Eu diria que ninguém deseja, realmente, o contacto com a imundice humana, por mais que faça parte da nossa natureza – com exceção para os coprófilos, com preferências sexuais nesse sentido (sim, com fezes), e de alguns (bizarros) artistas  plásticos – mas para o sexo anal abrimos uma exceção (alguns de nós, pelo menos). Porquê?

(Interregno: Devo dizer que a quantidade de piadas fáceis e ordinárias que afloram de forma intrusiva nos meus pensamentos enquanto escrevo este post é indescritível e perturbadora. Vou, contudo, poupar-vos).

Se o sexo anal comporta dificuldades tão inusitadas porque é que algumas mulheres, insistem em praticá-lo? É um bocado como aquele senhor que gritava “Ponha, ponha, ponha!” quando claramente não desejava nem um bocadinho que as patas daquele réptil amistoso lhe acariciassem a careca lustrosa. Sabem do que falo, não é? Aquele belo programa, cujo nome não recordo, apresentado pelo Jorge Gabriel há coisa de 20 anos. Priceless.

Voltando ao sexo anal…

As razões pelas quais os homens o procuram parecem bem fáceis de entender: décadas de visualização de pornografia que culminaram nesta fantasia delirante de que a mulher está sempre pronta e desejando ser por ali penetrada e, obviamente, a estimulação prazerosa advinda do contacto do seu pénis naquele local apertadinho. Assim sendo, não os condenemos. Mas a questão persiste, porque pretendemos fazê-lo? A verdade é que apesar de maioria das mulheres (79%) relatar a sua primeira experiência de sexo anal como dolorosa, de acordo com o estudo Croata de Stulhofer e Ajduvic (2013), afirmam também que a intensidade e duração da dor ou desconforto diminuem substancialmente com o tempo. Apesar de menos de 1/3 das mulheres estudadas afirmarem que raramente ou nunca experienciaram dor/desconforto, 58% das mulheres que o praticam reportam-no como muito excitante e prazeroso… A-ha! Então há um propósito no meio de tudo isto: a possibilidade de prazer simples ou, pelo menos, sem desconforto, ou do prazer pela erotização da dor – que parece ser o que acontece na maioria dos casos entre as praticantes. Reparem que menciono “as” e não “os”, porque essa é toda outra história (que caberá noutros posts).

Só há uma conclusão possível: façam sexo anal se vos apetecer, caso contrário não o façam. Ninguém deve levar a cabo uma prática sexual que não deseje. Se, e só se, o fizerem, esperem sentir desconforto ou dor, sem que isso implique, necessariamente, a ausência de prazer.

 

2_get_laid

 Tenho a sensação de que a expetativa de um encontro sexual desejado vem acoplada a uma expressão facial especial que, se não é universal, anda lá perto, pelo menos no mundo ocidental. Nada diz “contentamento” como os olhos sorridentes do “I’m going to get laid!”. Uso a expressão inglesa porque não conheço uma equivalente portuguesa que expresse tamanha transversalidade. Tipo: “Vou pinar hoje!”, “Hoje faço o amor”, “Vou ter relações sexuais”, “Hoje fodo!”?! Não é fácil. To get laid, parece-me uma expressão perfeitamente adequada. Nesta era de ampla globalização não só estamos autorizados a adotar este tipo de estrangeirismos como integramos em nós as mensagens culturais subjacentes. Mas talvez possamos deixar a discussão sobre a influência do global e da cultura na sexualidade para outro post. Voltando ao pré-sexo

Nada como tomar aquele banho caprichado, fazer a depilação, passar o creme cheiroso e colocar um outfit que, na verdade, esperamos despir com celeridade. Todos os rituais antecipatórios são importantes. Acompanham a excitação e funcionam como estimulante mental, criam o desejo. Fantasiamos sobre o que se sucederá, criamos cenários, enredos e, quando finalmente a concretização está próxima, aquele sorriso idiota que acompanhou toda a antevisão da cena transmuta-se em batimentos cardíacos acelerados, tensão na zona pélvica e nas famosas borboletas por ali acima. Há, efetivamente, muito do sexo que ocorre fora dele.

A antecipação do sexo pode ser uma coisa maravilhosa. Está bem que nem sempre este contexto “colorido” acompanha o ato em si. Trabalhamos, estamos cansados, precisamos de ir ao supermercado ou de terminar aquele documento que já não conseguíamos fitar, no vazio, no emprego, e há ainda filhos (os meus parabéns aqueles que se encontram em situação económica para os ter). Isto, já para não falar na duração das relações! As borboletas são efémeras…

De acordo com estudos diversos (e.g., Trudel et al., 2010), a satisfação sexual vai diminuindo ao longo do tempo (idade e duração da relação), isto é, quanto mais longa a relação amorosa menor a satisfação sexual. Nesse caso, será que estamos todos condenados a mau sexo – ou “sexo menos satisfatório que outrora”, vá – apenas por optarmos por uma relação de compromisso? Não necessariamente. Na verdade, quanto maior a satisfação com a relação amorosa, no global, maior a satisfação sexual (Lawrance & Byers, 1995), sendo que o contrário também é verdade: casais mais satisfeitos sexualmente são, também, casais mais felizes. Uma bela pescadinha de rabo na boca.

Então, como ser feliz em casal e/ou estar sexualmente satisfeito? Gostava muito de saber responder, mas não sei. O que parece, é que as duas valências influem muitíssimo uma à outra mas, uma vez que este é um blogue sobre sexo, no sexo que me focarei. Se o sexo é tão importante para a relação e é tão bom (para quem gosta), porque se queixam tanto os casais de perda de desejo ao longo do tempo? Há o cansaço, a rotina, já sabemos… No entanto, não podemos, como já vimos, subestimar a relevância da sexualidade na relação. Podemos, antes, valorizá-la. Não digo que as relações tenham ou devam ser hipersexuais ou que seja possível mimetizar os primeiros tempos de uma relação, mas, por vezes, proceder a pequenas mudanças nos contextos habituais pode trazer-nos alegrias.

Suponho, que com isto tudo, esteja a incentivar-vos não apenas aos rituais antecipatórios como os que descrevi, ou o-que-quer-que-façam-antes-do-sexo, mas a fomentar a espontaneidade. Com isto não estou a referir-me excentricidades, tão-somente a sair do usual quotidiano do pijama-xixi-cama.

ilustras-14

As pessoas falam muito sobre sexo. Eu pelo menos falo. Não sei se é uma questão geracional ou do meu contexto social direto mas, a verdade, é que falo sobre sexo todos os dias. Ou, pelo menos, sempre que saio para tomar café. Não há conversa que não acabe, comece ou passe lá perto. Será uma tendência feminina? Estou, de facto, rodeada de “jovens adultas”. Casadas, solteiras, enamoradas. O sexo preocupa-nos e interessa-nos. Queremos saber como as outras se sentem a fazer X e se gostam de Y, mas fazemo-lo em contexto protegido, em conversas pessoais e, se queremos divulgar conteúdos sex related, fazemo-lo em grupos privados do facebook. O sexo é mainstream, mas a sua discussão nem tanto.

Plantaram-nos a ideia adolescente de que “os homens só querem uma coisa” ou de “que são uns gabarolas” mas e nós? Discutimos pormenorizadamente a “noite de ontem”, detalhamos tamanho, formato e dureza do pénis dele e, ainda, a sua performance. A nossa sociedade tende à objetificação da mulher e da sua imagem mas entre [estas] mulheres eles são despidos e retalhados e ai deles se ejacularam depressa demais ou se tinham pelos no sítio errado. Se se distraírem e se se alongarem nus de costas, as mais afoitas até sacam uma foto para exibir no lanche de domingo. A diferença encontrar-se-á, parece-me, no facto de as mulheres procederem a esta objetificação em contexto privado (com exceção, talvez, para a app Lulu, que tanta polémica causou no Brasil), enquanto os homens são socialmente autorizados a fazê-lo na rua, no trabalho, nos media, etc.

Apesar de o que descrevo ser caricatural, capta decentemente o meu feeling entre trincas de croissant e golinhos de meia de leite. É óbvio que não falamos só só de sexo, mas que é muito importante para nós, não há dúvida, que pode ser muito divertido (des)conversá-lo, também não. Por isso que criei o pronto a despir, para trazer o sexo para fora da minha mesa de café e, se possível, desnudar-lhe alguns preconceitos. Procuro apenas criar espaço para tratar abertamente temáticas relacionadas com o sexo, convidar os utilizadores a participar e, quem sabe, levar o sexo para mais mesas de café. Estou pela desmarginalização do sexo, que de uma forma ou de outra, nos preocupa a todos.