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Ó ambivalência. Eles às vezes querem, nós às vezes até queremos e, provavelmente, às primeiras tentativas dissemos “ai, tira, tira, tira!” (e talvez até tenhamos ficado só por essas). Na verdade, parte das mulheres que experimenta sexo anal não o repete por ser demasiado doloroso. Apesar de todas as fantasias que o canal 18 e o xHamster impregnaram nas mentes geradas nos anos 80, a prática de sexo anal tem mais que se lhe diga do que “Anda cá filha/Quero tanto levar no cu!”. Meros devaneios. As primeiras experiências de sexo anal, caso seja possível tolerar a dor, parecem assemelhar-se ao ato de defecar. Francamente, por momentos, até parece que é efetivamente isso que está a acontecer – incidente cujo desfecho possível é o da expressão de um sonoro “Sai, sai, SAAAAI!” Bom, ultrapassando a dor lancinante e a perceção de descontrolo esfincteriano há, ainda, que suplantar o medo da porcaria. Pois é, todos sabemos o que lá vamos encontrar. Cocó. Merda, fezes, como queiram. (Não deixa de ser espantoso que sejamos tão repelidos por encontrá-lo nos diversos contextos das nossas vidas, nas nossas solas ou casas-de-banho públicas, e tão interessados pelo seu canal de excreção). Eu diria que ninguém deseja, realmente, o contacto com a imundice humana, por mais que faça parte da nossa natureza – com exceção para os coprófilos, com preferências sexuais nesse sentido (sim, com fezes), e de alguns (bizarros) artistas  plásticos – mas para o sexo anal abrimos uma exceção (alguns de nós, pelo menos). Porquê?

(Interregno: Devo dizer que a quantidade de piadas fáceis e ordinárias que afloram de forma intrusiva nos meus pensamentos enquanto escrevo este post é indescritível e perturbadora. Vou, contudo, poupar-vos).

Se o sexo anal comporta dificuldades tão inusitadas porque é que algumas mulheres, insistem em praticá-lo? É um bocado como aquele senhor que gritava “Ponha, ponha, ponha!” quando claramente não desejava nem um bocadinho que as patas daquele réptil amistoso lhe acariciassem a careca lustrosa. Sabem do que falo, não é? Aquele belo programa, cujo nome não recordo, apresentado pelo Jorge Gabriel há coisa de 20 anos. Priceless.

Voltando ao sexo anal…

As razões pelas quais os homens o procuram parecem bem fáceis de entender: décadas de visualização de pornografia que culminaram nesta fantasia delirante de que a mulher está sempre pronta e desejando ser por ali penetrada e, obviamente, a estimulação prazerosa advinda do contacto do seu pénis naquele local apertadinho. Assim sendo, não os condenemos. Mas a questão persiste, porque pretendemos fazê-lo? A verdade é que apesar de maioria das mulheres (79%) relatar a sua primeira experiência de sexo anal como dolorosa, de acordo com o estudo Croata de Stulhofer e Ajduvic (2013), afirmam também que a intensidade e duração da dor ou desconforto diminuem substancialmente com o tempo. Apesar de menos de 1/3 das mulheres estudadas afirmarem que raramente ou nunca experienciaram dor/desconforto, 58% das mulheres que o praticam reportam-no como muito excitante e prazeroso… A-ha! Então há um propósito no meio de tudo isto: a possibilidade de prazer simples ou, pelo menos, sem desconforto, ou do prazer pela erotização da dor – que parece ser o que acontece na maioria dos casos entre as praticantes. Reparem que menciono “as” e não “os”, porque essa é toda outra história (que caberá noutros posts).

Só há uma conclusão possível: façam sexo anal se vos apetecer, caso contrário não o façam. Ninguém deve levar a cabo uma prática sexual que não deseje. Se, e só se, o fizerem, esperem sentir desconforto ou dor, sem que isso implique, necessariamente, a ausência de prazer.