Porque é que o sexo acaba quando ele se vem?

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Pois é, parece que a maioria de nós – dos heterossexuais, leia-se – tende a seguir o mesmo guião: primeiro lá vem o desejo, seguido da excitação, normalmente auxiliada pela estimulação genital, dá-se início à penetração e, se tudo correr bem, lá se chega à resolução – ao orgasmo feminino e, por fim, à ejaculação. Por fim, sempre por fim. A sucessão destas fases da resposta sexual apesar de, a meu ver, discutível, é uma visão standard da coisa e vai de encontro ao expectável. Agora expliquem-me, porquê? Porque é que a relação sexual termina quando ele ejacula? Quem é que definiu isto? Foi, certamente, o Homem. Esse mesmo, aquele que se autoproclama Humanidade e que vem há milénios a sobrepor-se às mulheres (não, não dizemos “a Mulher” – é um facto). A verdade é que ejaculação findar a relação sexual é uma norma pré-estabelecida sobre a qual não pensamos muito. Quer haja orgasmo feminino, quer não, com a ejaculação, finito. Claro que isto faz algum sentido do ponto de vista evolutivo. Mas, considerando que aí 99% da nossa atividade sexual visa o prazer e não a reprodução (digo eu), talvez não seja uma convenção social assim tão brilhante.

Não quero ser injusta, até porque me parece que uma parte substancial dos homens procura que exista prazer feminino e se preocupa grandemente com a sua performance. Muitos só se permitirão a ejacular após o orgasmo dela. Claro que estas “boas intenções” podem camuflar uma espécie de preocupação despreocupada… “Ufa, já se veio, agora posso fazer as coisas à minha maneira!” e pimba, pimba, pimba. No geral, esta pode ser até uma boa estratégia – garante-se que a mulher tem prazer, para somente depois se concentrarem em maximizar o seu -, que normalmente implica a penetração total, repetidas vezes, com grande amplitude do movimento “dentro-fora”. A mim, no entanto, sopesam-me duas questões: 1) Lá porque uma mulher teve um orgasmo significa que teve uma relação sexual satisfatória? 2) Quem disse que depois do orgasmo há legitimidade para uma focagem somente no prazer masculino? Não há, sobretudo se a penetração implicar já desconforto para a mulher – o que nos momentos sexuais mais longos pode acontecer. Não quero ser excessivamente castradora, até porque há posições que darão mais prazer às mulheres do que aos homens – normalmente aquelas em que há mais contacto e fricção na zona da vulva e clitóris, mesmo sem estimulação direta (manual, oral) destas – mas defendo que o desconforto ou dor devem ser evitados, se possível e se não forem desejados.

Voltando à questão que iniciou tudo isto – Porque é que o sexo acaba quando ele se vem? Pois, não sei, mas desconfio que tem a ver com ambas as partes. Quantas vezes foi sugerido a uma mulher ser estimulada até atingir o orgasmo depois do “fim” da relação sexual, i.e., ejaculação masculina? Poucas, mas algumas. Quantas vezes foi a sugestão aceite pelas mulheres? Muitas menos, provavelmente. E tudo isto tem a ver com o quê? Culpa. A eterna culpa cristã que postula que o prazer (sobretudo o feminino) é uma coisa feia. Culpa e subjugação ao prazer masculino.

Suponho que o ideal seria um orgasmo simultâneo. Assumindo que tal não acontece todos os dias, parece legítimo que uns dias seja à maneira dele, outros à maneira dela, não? Agora imaginem uma relação sexual que acaba logo após o orgasmo feminino e sem ejaculação masculina. Yeah right.

Autor: prontoadespir

Sexo descomplicado.

6 pensamentos

  1. Antes de mais, parabéns pela tua escrita, e pelo ritmo das palavras – dançam tão bem.
    Depois, a tal provocação: o que me chateia um pouco no texto é esse preconceito que para os homens o “prazer feminino é secundário”. Não é, não pode ser!! e aí a culpa é dos dois: dos homens que ainda assim pensam (burros), mas mais das mulheres que ainda assim se subjugam (idiotas).

    Do texto em si, vamos por partes, primeiro a física, depois a conceptual:
    _ O facto de a ejaculação masculina ser, muitas vezes, uma meta de chegada, é porque fisicamente o é mesmo. E nem todos os homens tem o treino, dedicação, ou sentido de “responsabilidade” de, das duas, uma: ou já terem satisfeito a sua parceira antes da meta, ou saberem que as vezes há metas depois da meta – que passam ou outras estimulações da parceira, que a façam chegar ao merecido êxtase.

    _ Falando agora do conceito em si, acredita que para muitos homens o prazer deles passa, antes de tudo, pelo prazer da parceira em si. Isto é, que o que os excita e entusiasma é mesmo perceberem como a parceira está sexualmente a ter prazer. E ai, o “Muitos só se permitirão a ejacular após o orgasmo dela”, mais que performance, ou acto de cavalheirismo, é mesmo uma necessidade de prazer e contentamento – chega a haver um prazer físico em vê-la ter um orgasmo. E sim, um orgasmo simultâneo é, especialmente neste caso, o cenário perfeito.

    Mas, armado em entendido e dando conselhos de algibeira, penso que acima de tudo, o orgasmo/ejaculação é um mito: é um objectivo pré-concebido nesse guião que falaste, mas que só atrapalha quando visto como uma “obrigação”. O prazer tem de ser brutal antes de chegar a esse ponto. Ou mesmo que não se chegue lá. É um bonito acto de respeito, quando um homem abdica do seu orgasmo, por perceber que (por algum motivo) ela já não está a ter prazer..

    1. Concordo contigo, acho mesmo que é um problema partilhado, apesar de ser fundamentalmente um problema social – é esperado e até valorizado que uma menina/mulher seja recatada, passiva e até submissa. Dos homens, pelo contrário é esperada toda a atividade. Não quero com isto dizer que é assim que as coisas acontecem (ou devam acontecer), mas quis sublinhar que este ainda é um modelo vigente!
      E concordo tanto contigo quando dizes que o orgasmo é uma meta pré-concebida!! O prazer é a meta, seja qual for o tipo de prazer…
      Agora quando falas “num bonito ato de respeito” já acho um pouco excessivo. O ato em si não é bonito, não é uma oferenda ao outro (outra, neste caso), parece-me a única opção possível, na verdade. Claro que para alguém parar um comportamento sexual porque não proporciona prazer (e talvez leve ao desconforto) tem que existir comunicação. Tenho a certeza que se as mulheres comunicassem mais sobre o prazer a maioria dos homens se adaptaria… O problema é que para isso temos que mudar o modelo de atividade/passividade do homem/mulher. não achas?
      (E obrigada por me continuares a fazer pensar sobre isto)

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