Archives for the month of: Julho, 2014

No seguimento de uma visita constrangedora ao fisioterapeuta – que apontou certas posições sexuais como fatores de manutenção de uma lesão reincidente que parte do ísquion – pus-me a pensar que isto do sexo é um pau de dois bicos (que adequado). Fiz algumas investigações, das quais vos apresento os resultados.

Vou poupar-vos às listas das 10 complicações mais comuns, até porque basta escreverem “acidentes durante o sexo” no Google para terem acesso a estas maravilhas. As distensões musculares e as dores de costas lideram as tabelas de danos corporais, o que não era imprevisível. Já quanto a danos materiais camas e cadeiras encabeçam o top, com menções honrosas para copos e canecas. Aparentemente também se danificam paredes, dado algo perturbador, considerando que só abri estuque à martelada ou com um Black & Decker. Estar-me-á a escapar alguma coisa?

Relatos pormenorizados de tragédias na intimidade são também recorrentes na web. A maioria em português do Brasil, como tudo. A descrição de alguém que vomitou em pleno deep throat, deixando parceiro e lençóis numa piscina de fel, foi marcante. Mais ainda para o casal em questão, imagino.

Além das pesquisas online, fiz algumas indagações pessoais sobre o assunto e constatei que, mesmo sem grandes acrobacias, há riscos. Múltiplos. Elaborei, com as experiências vívidas dos meus pares, o meu próprio Top10, do mais frequente ao mais catastrófico desastre sexual:

1)       Distensão muscular. Aparenta ser a lesão mais comum. Portanto já sabem, assim que antevirem o que lá vem sexo, digam “Alto!” e iniciem uma sessão de alongamentos. Não vale menos de 10 segundos para cada músculo.

2)       Dor de costas. Já sabem, nunca descurar a postura. Aconselho a contração dos músculos abdominais para fortalecer o core e assim evitar lesões na lombar. Peitorais para fora e ombros alinhados com a coluna, não vão ficar marrecos. O uso de um espelho para a monitorizar a situação pode também revelar-se útil.

3)       Cãibras no pé. Um clássico. Teimam em aparecer quando o clímax se aproxima, arruinando por completo a possibilidade de uma resolução prazerosa. Solução? Diz que comer bananas ajuda. Tem a ver com o potássio. Por trás de cada ser humano sexuado tem que estar uma alma atlética, estou a ver.

4)       Queimaduras nos joelhos. Dão-se em carros, carpetes, tendas. Uma pessoa não dá nada por eles mas com o roçar repetitivo nestas superfícies a sensação de atrito suave transforma-se em onda de calor localizada e culmina num ardor queixoso, característico do esfolamento da epiderme. Este abrasamento rosa dará origem a um castanho seco no dia seguinte. Evitem materiais plásticos, tenho dito.

5)       Irritação ocular. Devido a esperma no olho, claro está. Ou por fraca pontaria ou devido a um olhar esbugalhado inoportuno. Convém enxaguar de imediato.

6)       Perda de urina. Pois é, acontece. Pode, aliás, dar-se sem que se apercebam. No fim da relação sexual repararão, no entanto, que em vez das habituais manchas de suor e circunscritos depósitos de fluidos, se encontram sob uma ampla poça. Sou completamente a favor dos protetores de colchão ao longo de todo o ciclo de vida.

7)       Vómito. Não conheço ninguém que tenha efetivamente vomitado, mas muitos descreveram idas velocistas aos lavabos, prevenindo o pior, após um felácio menos apreciado. That’s life.

8)       Objeto desaparecido. Este dá-me sempre para rir. Já todos ouvimos a “história da garrafa”, normalmente cunhada a uma qualquer adolescente desgraçada cujo nome será sempre sucedido por “Porca”. Histórias de objetos perdidos na vagina ou ânus são normalmente das preferidas dos meus amigos médicos. Mas nem sempre é necessário recorrer à urgência. Por favor mantenham a calma. Na maioria dos casos se entrou, sai. Calma e pompoarismo, tenho dito.

9)       Prepúcio preso. No aparelho (este é muito adolescente). O resultado possível? Um banho de sangue acompanhado de dor lancinante e grito prolongado e sonoro. Ir ao hospital nestes preparos é que não.

10)   Circuncisão. Esta não ocorre em pleno ato mas sim em resultado deste. Para quem não foi circuncisado em criança há sempre a possibilidade de sofrerem, um dia, uma relação sexual dolorosa por maltratarem o material. Ouch. Para as urgências, diretamente.

E é isto. Voltem sempre.

 

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mamading_1-22

Este não era para ser um post sobre “mamading”, sobre o qual já provavelmente ouviram falar, mas acabou por aí enveredar. Refiro-me ao vídeo que circula online em que se vê uma jovem inglesa a fazer 24 broches em dois minutos e meio com o intuito de receber bebidas grátis numa discoteca em Maiorca. Mas comecemos pelo início:

Mamading

De origem etimológica em “mamada” (‘ato de chupar’), do espanhol, a que foi adicionado o sufixo “ing” (‘expressa a ação do verbo ou o seu resultado’), do inglês. Expressão de génese irrefletida mas cujo significado não apresenta dúvidas – o ato de praticar felácio em troca de bebidas alcoólicas. Julgo que nos dias que correm até a Carolina Patrício apreendeu o sentido da expressão (se não sabem a que me refiro googlem “mamada+carolina patrocínio”).

O que é que eu acho sobre isto tudo? Ainda não sei bem. O sexo é normalmente praticado com o intuito da gratificação, mas nem sempre. Neste caso o sexo aparenta servir a função de obter cocktails e não a satisfação sexual [dela]. O que ganham eles também não se prende com a excitação, tão pouco. Não observei uma única ereção, apenas um triste espetáculo de pénis amolecidos como manteiga em Julho, apesar dos esforços da loira jovem já sem soutien, cuja mama direita tendia a escapulir-se do top. Portanto os tipos limitaram-se a pôr cretinice em update para adquirir uma sua versão ainda mais detestável que anterior. Muito bem. Espero que tenham de cumprir pena por crime contra a autodeterminação sexual o que, caso a loira seja menor ou estivesse sob efeito de substâncias (o que a avaliar pelas manifestações mamilares entre passadas cambaleantes eu diria que sim), pode mesmo acontecer. Quanto ao excelentíssimo estabelecimento talvez seja acusado de lenocínio (incitação à prostituição) e seja vedado de contribuir para a microcefalia alheia. É também possível que nada disto aconteça. Humanidade: 24; Mulher: -20.

Claro que o evento pode ter uma leitura completamente diferente, caso a rapariga cujas peripécias orais estão mais em voga que as de Stoya ou Sasha Grey estivesse só a usar o seu livre arbítrio ao praticar 24 broches. Não é, certamente, a primeira a ter relações sexuais para obter algum tipo de recompensa. Também não poderá ser ostracizada por exercer a sua liberdade sexual – se quer fazer 24 broches, faça. Sei lá se constitui alguma fantasia pessoal que foi assim satisfeita. Então porque é que qualquer referência a isto do mamading deixa o meu sistema gastrointestinal enrodilhado? É que além de exacerbar a estupidez humana, um dado antigo mas não menos preocupante, evidencia a subjugação feminina a que a sociedade incumbe. Não basta ser mulher-objeto, há que sê-lo de forma subserviente e entreter energúmenos de pila murcha. A capacidade de submissão feminina provem de centenas de anos treino de adaptação ao grupo com mais poder, os homens, que estão socialmente autorizados a divertir-se, ao contrário das mulheres, a quem a sociedade impõe papéis incongruentes, de difícil gestão. A mesma sociedade que banaliza o sexo mas que atira a primeira pedra se uma mulher o pratica de forma despudorada. O que é interessante é que quem atira mais pedras são as próprias mulheres, que interiorizaram de tal forma uma identidade de género que culpabiliza o prazer (ou liberdade de fazer do sexo o que se quer) mas espera a submissão (ao prazer alheio, por vezes), que não compreendem que ao escarnecerem da rapariga loira estão a agrilhoar mais um membro ao machismo. As mulheres são seres incríveis e de tal forma adaptáveis que conseguiram acreditar naquilo que lhes é imposto mesmo que seja dissonante e atente contra si mesmas. São, elas próprias, machistas. Creem que o prazer é um direito dos homens, a quem devem obediência. Nada contra a submissão como fantasia, por parte de homens ou mulheres, se o fizerem por opção, num contexto protegido em que tal lhes é realmente dado a escolher. Tenho sérias dúvidas se foi isso que se passou em Maiorca.

Acho que já sei o que pensar disto tudo. Não é o mamading, como ato, que me perturba, é a possibilidade de que quem o pratique o faça sem questionamento. Que se julgue a exercer o direito à liberdade sexual e que, na verdade, se encontre a desempenhar um papel submisso que não escolheu, foi-lhe ofertado. Prenda podre de ofensas e chacota que implodem ao desembrulhar. O que me entristece é que a interiorização do duplo padrão sexual é a explicação mais otimista dos acontecimentos de Maiorca. Não creio, na verdade, que a jovem tenha emborcado 24 pilas a seu bel-prazer. O mais provável é que se encontrasse alcoolizada e, como tal, incapaz de agir por autodeterminação – o significa que houve abuso. Crime. Se quiserem insultar alguém que insultem os ignóbeis acoplados àquelas pilas e o estabelecimento que os incitou.

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boca gulosa

Como é que prevemos a qualidade de desempenho sexual de um potencial parceiro? A este respeito já ouvi maravilhas com o rigor científico da carta astrológica da revista TV-Guia. Ora vejamos:

“Tem cara de porca!”

Um clássico. Tipo, cara de porca literalmente? Narinas na vertical e septo nasal atarracado? Provavelmente não. Acho que isto de ter ar de porca deve remeter para a estética da indústria pornográfica. Mesmo assim tenho sempre algumas dúvidas sobre o que isto significa. Se alguém me elucidar, agradeço.

“Olhos de quem gosta.”

Elementar, caro Watson. Toda a gente sabe que os olhos de quem gosta são amendoados, abertos meia haste e, obviamente, castanhos (os mais sinceros). Transbordantes de luxúria, estes olhos de quem gosta. Topam-se a milhas.

“Tem que ter uma gargalhada vinda lá do fundo.”

Suponho que se reporte ao fundo da garganta. Uma vez mais julgo que a referência é à sinceridade. Pessoas com gargalhadas honestas são evidentemente mais desinibidas na cama. Não há dúvida. Ou será que o facto de a gargalhada vir do fundo constata uma garganta funda? Agora sim, vejo tudo com clareza: gargalhada sonora = garganta funda = bons bicos. É óbvio.

“Come vorazmente.”

Confesso que esta é criativa. Toda a gente sabe que alguma perturbação na regulação dos impulsos alimentares vai, necessariamente, culminar numa boa foda. Descontrolada, sem medir fins, satisfeita. Pode ocorrer que durante o ato se dê um ataque cardíaco ou qualquer outra maleita de origem cardiovascular mas, em boa verdade, consigo pensar em formas bem piores de passar para o outro lado.

Em suma, acho que o ideal, quando se encontrarem em pleno ritual de acasalamento, é semicerrarem os olhos, aparentando gostar muito, rirem o mais audivelmente que conseguirem e movimentarem-se, com toda celeridade, para a compra de um éclair de chocolate. Com chantilly! Se tiverem que improvisar acho que um folhado misto também deve dar para safar. Só não aconselho aquela história do ar de porca. Tenho a certeza que implica sobrancelhas depiladas de forma anormalmente fina, como qualquer atriz porno de renome, e tal só é aceitável à Beatriz Costa ou outro alguém que lhe tenha sobrevivido.

Confiem sempre na sabedoria popular.

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ai_tao_bom_2-18

É possível que já vos tenha acontecido, em contextos vários, dizerem alguma coisa de que se arrependem imediatamente ou, por vezes, até em tempo real. É um pouco como cair de bicicleta ou sofrer um qualquer acidente doméstico. Parece que o evento se processa em câmara lenta e que se ouve uma voz distorcida gritando “NÃAAAAAAO”. Mesmo assim acabamos estatelados no chão ou com um copo entornado na bancada. Nada disto, no entanto, se compara com o constrangimento associado à sensação de ter verbalizado algo descontextualizado na cama ou com a vergonha alheia de ouvir a outrem a produção de expressões com que não nos conseguimos relacionar. Um problema bilateral sem remédio a partir do momento em que abrimos a boca. Não basta cobrir-nos de ridículo como pomos o outro na posição inglória de gerir este momento incómodo (ou viceversa).

É dramático.

Ora vejamos… No outro dia uma amiga contava-me acerca de um encontro sexual que tinha tido com alguém pela primeira vez. Foi algo casual – ou pelo menos passou a sê-lo a partir do momento em que ele utilizou a expressão errada. O indivíduo em questão, num momento de manifesto prazer quando se encontrava sobre ela, emite o seguinte dizer: “Ai tãaaao bommm”. Só que não estava a ser assim tão bom, para ela. Neste momento de disparidade de prazer, restou-lhe apenas adiar o riso até o próximo evento social em que estes assuntos são discutidos – cafés e jantares de meninas. O que é engraçado é que a expressão, em si, nada tem de bizarro mas, naquele momento específico, foi simplesmente desadequada para um dos envolvidos. Resultado: se algum dia esta pessoa for avistada tenho a certeza que o apontarão como “Olha ali vai o Ai-Tão-Bom” e não mais se livrará da alcunha.

Mas esperem, que isto pode ficar tão mais constrangedor.

Lembro-me de alguém que proferiu em pleno fellatio o primeiro “Amo-te” alguma vez pronunciado no contexto daquela relação. Agora imaginem a confusão mental desta pessoa, em plena manobra de sucção e lambuzamento peniano, ao ouvir tamanha confissão – “Hã? Isto não era suposto acontecer num momento de corpos entrecruzados e intensa fixação ocular?” Opções: a) cuspir a pila e responder “Eu também”; b) ir até ao fim, como se nada se tivesse passado, e fugir de cena o mais depressa possível; c) duvidar da veracidade da declaração, atribuindo-a a um devaneio pré-orgástico; c.a) expelir o falo e questionar o interlocutor para que comprove, naquele momento, aquilo a que se propôs; c.b) terminar a tarefa (afinal era para isso que ali estavam) e fazer inquisições a posteriori. Uma coisa é certa, deve ter sido um ótimo broche.

Não vou estender-me mais por hoje mas prometo reunir o Top 10 das expressões mais constrangedoras durante o ato e postar numa outra ocasião. Até lá.

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