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Este não era para ser um post sobre “mamading”, sobre o qual já provavelmente ouviram falar, mas acabou por aí enveredar. Refiro-me ao vídeo que circula online em que se vê uma jovem inglesa a fazer 24 broches em dois minutos e meio com o intuito de receber bebidas grátis numa discoteca em Maiorca. Mas comecemos pelo início:

Mamading

De origem etimológica em “mamada” (‘ato de chupar’), do espanhol, a que foi adicionado o sufixo “ing” (‘expressa a ação do verbo ou o seu resultado’), do inglês. Expressão de génese irrefletida mas cujo significado não apresenta dúvidas – o ato de praticar felácio em troca de bebidas alcoólicas. Julgo que nos dias que correm até a Carolina Patrício apreendeu o sentido da expressão (se não sabem a que me refiro googlem “mamada+carolina patrocínio”).

O que é que eu acho sobre isto tudo? Ainda não sei bem. O sexo é normalmente praticado com o intuito da gratificação, mas nem sempre. Neste caso o sexo aparenta servir a função de obter cocktails e não a satisfação sexual [dela]. O que ganham eles também não se prende com a excitação, tão pouco. Não observei uma única ereção, apenas um triste espetáculo de pénis amolecidos como manteiga em Julho, apesar dos esforços da loira jovem já sem soutien, cuja mama direita tendia a escapulir-se do top. Portanto os tipos limitaram-se a pôr cretinice em update para adquirir uma sua versão ainda mais detestável que anterior. Muito bem. Espero que tenham de cumprir pena por crime contra a autodeterminação sexual o que, caso a loira seja menor ou estivesse sob efeito de substâncias (o que a avaliar pelas manifestações mamilares entre passadas cambaleantes eu diria que sim), pode mesmo acontecer. Quanto ao excelentíssimo estabelecimento talvez seja acusado de lenocínio (incitação à prostituição) e seja vedado de contribuir para a microcefalia alheia. É também possível que nada disto aconteça. Humanidade: 24; Mulher: -20.

Claro que o evento pode ter uma leitura completamente diferente, caso a rapariga cujas peripécias orais estão mais em voga que as de Stoya ou Sasha Grey estivesse só a usar o seu livre arbítrio ao praticar 24 broches. Não é, certamente, a primeira a ter relações sexuais para obter algum tipo de recompensa. Também não poderá ser ostracizada por exercer a sua liberdade sexual – se quer fazer 24 broches, faça. Sei lá se constitui alguma fantasia pessoal que foi assim satisfeita. Então porque é que qualquer referência a isto do mamading deixa o meu sistema gastrointestinal enrodilhado? É que além de exacerbar a estupidez humana, um dado antigo mas não menos preocupante, evidencia a subjugação feminina a que a sociedade incumbe. Não basta ser mulher-objeto, há que sê-lo de forma subserviente e entreter energúmenos de pila murcha. A capacidade de submissão feminina provem de centenas de anos treino de adaptação ao grupo com mais poder, os homens, que estão socialmente autorizados a divertir-se, ao contrário das mulheres, a quem a sociedade impõe papéis incongruentes, de difícil gestão. A mesma sociedade que banaliza o sexo mas que atira a primeira pedra se uma mulher o pratica de forma despudorada. O que é interessante é que quem atira mais pedras são as próprias mulheres, que interiorizaram de tal forma uma identidade de género que culpabiliza o prazer (ou liberdade de fazer do sexo o que se quer) mas espera a submissão (ao prazer alheio, por vezes), que não compreendem que ao escarnecerem da rapariga loira estão a agrilhoar mais um membro ao machismo. As mulheres são seres incríveis e de tal forma adaptáveis que conseguiram acreditar naquilo que lhes é imposto mesmo que seja dissonante e atente contra si mesmas. São, elas próprias, machistas. Creem que o prazer é um direito dos homens, a quem devem obediência. Nada contra a submissão como fantasia, por parte de homens ou mulheres, se o fizerem por opção, num contexto protegido em que tal lhes é realmente dado a escolher. Tenho sérias dúvidas se foi isso que se passou em Maiorca.

Acho que já sei o que pensar disto tudo. Não é o mamading, como ato, que me perturba, é a possibilidade de que quem o pratique o faça sem questionamento. Que se julgue a exercer o direito à liberdade sexual e que, na verdade, se encontre a desempenhar um papel submisso que não escolheu, foi-lhe ofertado. Prenda podre de ofensas e chacota que implodem ao desembrulhar. O que me entristece é que a interiorização do duplo padrão sexual é a explicação mais otimista dos acontecimentos de Maiorca. Não creio, na verdade, que a jovem tenha emborcado 24 pilas a seu bel-prazer. O mais provável é que se encontrasse alcoolizada e, como tal, incapaz de agir por autodeterminação – o significa que houve abuso. Crime. Se quiserem insultar alguém que insultem os ignóbeis acoplados àquelas pilas e o estabelecimento que os incitou.