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Quando as bloggers de moda vão de férias – perdão, de “lifestyle” – batem teclas acerca de praias incríveis, de spas ainda mais incríveis, daquele aftersun que lhes salvou a vida ou das peripécias desenvolvimentais dos seus rebentos. Já eu, nestas férias, deparei-me com um problema de conteúdo: sobre o que escreve uma blogger como eu durante as suas férias? Já agora, que designação poderá ter uma blogger que escreve sobre sexo?  Blogger do sexo? Ouch. Blogger sexual? Nem pensar. Vou ter que pensar bem sobre isto, pois se me apelidar desta forma é certinho que começo a receber e-mails ou comentários bem a meu contragosto (“O teu blogue fode?”; “Gostas de teclar?/ Cá para mim queres é pinar”; “Vem conhecer os carateres do meu corpo” ou outros dizeres dos sucedâneos online de obreiros e condutores de ambulância de uma inspiração e criatividade que não possuo).

Mas voltando ao busílis da questão: sobre o que escrevo durante as férias? Certamente não sobre as minhas experiências sexuais… Sobre as experiências sexuais dos outros, claro, como, aliás, sempre. Então aqui, só para vocês, elaborei um guia de turismo sexual dos Açores, na ilha de São Miguel, mais precisamente – local onde me deleitei por uma semana. Para cada dia compilei uma experiência, sendo que terão que as adaptar às condições atmosféricas:

Dia 1. Ora à chegada a Ponta Delgada recomendo entrar com o pé direito nas Portas da Cidade, comer um Queijadinha da Vila, que é um consolo. Caso tenham relações sexuais com um nativo é exatamente isso que vão ouvir “Eh, estou-me consolando”.

Dia 2. Se apanharem o Festival do Monte Verde desaconselho francamente o consumo de aguardente da Graciosa. É bem possível que encaminhe um coito. No entanto, é igualmente provável que se encontrem demasiadamente anestesiados para sentir o que quer que seja durante o ato. É também altamente provável que vomitem.

Dia 3. Nas Furnas, onde o famoso cozido é acalentado pelo coração da  Terra, têm também a oportunidade de relaxar na piscina de água férrea. A piscina onde ficam invisíveis um centímetro abaixo do nível da água. A piscina em que a água escalda e os contactos sexuais proliferam entre casais de adolescentes ou casais de sexagenários (yep). Vi com estes olhinhos. É ferro afrodisíaco.

Dia 4. À vinda não deixem de fazer uma paragem na Lagoa do Fogo. É incrível. Tenham sempre o cuidado de viajar com um pacote de bolachas Mulatas (tipo Maria de chocolate) pois é possível que se percam nos trilhos da montanha e é importante que equilibrem os níveis de glicémia antes que agridam verbalmente alguém ou atirem o GPS pela janela. Vai valer a pena. Se viajarem com a vossa cara-metade serão automaticamente impelidos à fofura. Se não for o caso não há problema, dá-me ideia que os autóctones adoram pessoal do continente.

Dia 5. Façam uma pausa num dia de chuva. Não precisam de planear. Acontece todos os dias. Aqueçam-se com um chá Gorreana, a mais antiga fábrica de chá da Europa, ou deliciem-se com a fruta local. Os maracujás, cuja designação inglesa é bem mais tórrida – “passionfruit” – são uma barateza. Fiquem assim sem fazer nada, a ouvir a chuva e a observar as vaquinhas entre a neblina. Nos intervalos têm muito tempo para fazer aquele amor preguiçoso.

Dia 6. Estava a esquecer-me das praias, que disparate. São quase todas ótimas e fotogénicas. Estranhamente, aquela areia cinza de origem vulcânica é um conforto. Aconselho a praia dos Moinhos, com uma cascata por trás do parque de estacionamento em que não se vislumbra uma alminha (if you know what I mean). A praia da Ribeira Grande também não está mal e comem-se umas lapas grelhadas na esplanada que são do melhor.

Dia 7. Guardei o melhor para o fim: Sete Cidades. Além de poderem tirar aquela foto cliché das lagoas choradas por amantes de olhos verdes e azuis interpostas por uma daquelas hortenses arroxeadas, podem explorar a Ferraria. Uma baía rochosa no Atlântico em que o mar queima devido à atividade do vulcão. Outra vez é uma tentação para mãos e bocas adolescentes. Aqui, no entanto, não se goza da opacidade férrea. Qualquer apalpão é bem visível. Portanto acalmem essa libido e venham desfrutar de um prego no bolo lêvedo (muito melhor que o bolo do caco) atestado de pimenta da terra (tipo massa pimentão) na esplanada das Termas, um pouco mais acima.

Bem sei que as minhas orientações são mais de cariz gastronómico do que sexual mas bom, estive de férias, sem parceiro, e o meu foco dispersou. Dispersou para uns bons quilinhos a mais. É que me esqueci de mencionar o polvo, o doce de amora, a massa sovada, o arroz de peixe amarelo de açafrão e os queijos. Os queijos. Da Ilha de São Jorge ou em folha de bananeira. Com marmelada ou pimenta da Terra. Só me volto a pesar depois de aberta nova época desportiva.

Voltarei a escrever todas as semanas a partir de Setembro, prometo.

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