piropos-04

Pergunto-me frequentemente se terei conteúdos suficientes para posts semanais. Até passar pela obra aqui ao lado. O conteúdo sexual das verbalizações emitidas pelos trabalhadores é merecedor de referência. Não é que eu ouvi “Já comi pior e a pagar”? O ultraje! A minha vontade foi passear-me por todo o cordão de imóveis em reabilitação prestes a transformar-se em airBnB em torno da baixa lisboeta para repor a minha autoestima. Olha agora “já comi pior”. Estou acostumada a ouvir o elogio às minhas formas, o enaltecimento da minha beleza, a ode ao meu sexappeal e, claro está, a vulga brejeirice dedicada aos meus genitais. Eu e toda a mulher que se passeie. Mulher é talvez uma generalização abusiva porque qualquer criança pré-púbere do sexo feminino já contactou com os dizeres inspirados do obral. Sobre mamas nunca ouvi grande coisa, nunca encheram propriamente o decote, uma pena.

Pergunto-me como se dará o processo criativo. Carrega-se um baldinho de massa, bebericam-se uns golinhos de coca-cola light (quem é que eu estou a enganar?), miram-se umas quantas garinas até aparecer aquela miúda especial que é presenteada com aquele clássico “Não sabia que as flores andavam”. Bom, processo criativo é como quem diz pois há umas boas décadas que não oiço um bom upgrade e protesto! Se é para ser objetificada quero sê-lo pelos meus atributos específicos e não por me incluir na categoria genérica de ser mulher. Vá lá pessoal, é só renovar o repertório. Observem a moça que vai a passar mas com atenção. Uma musa. Uma inspiração. Já pensaram que podem criar novos piropos? Lançar modas? Levar a vossa tendência aos mais recônditos lugares do país? Com treino ainda chegam a copy numa empresa de publicidade. Pensem nisso. Podem fazer diferença neste mundo.

Eu dou uma ajuda. Trato do trabalho de pesquisa. A inspiração é convosco. Agora vamos a um refrescamento dos galanteios arquetípicos da construção civil:

O piroso: “Por acaso não és diabética? É que tens um olhar que é um doce.”

(Matem-me agora)

O engraçadinho: “O cão morde? … E a menina?”

O antecessor é aquele senhor do café que pergunta “queria ou quer?” enquanto um sorriso amarelíssimo nos aflora a face.

O naïve: “Diz-me como te chamas para te pedir ao Pai Natal.”

Por favor.

O romântico: “Estás cansada? … É que passas os dias a andar na minha cabeça.”

É verdade aquela frase de engate que julgaríamos ter ficado para adolescentes a implodir de testosterona continua a ser um hit.

O butt-lover: “Oh boa, com um cu desses deves cagar bombons!”

Não há trolha que se preze que não tenha um fraquinho por nádegas de dimensões generosas. O problema é que também aparentam ter nascido com a boca entre estas. (Estou muito engraçadinha).

O tradicionalista: “Ó joia anda aqui ao ourives.”

Então qual é o problema? Esta é coisa para ter pouco mais de meio século. Nunca sai de moda.

O poeta: “Ó princesa queres vê-la tesa?”

De forma alguma caríssimo príncipe. É que não fiz mal a ninguém.

O engatatão: “Acreditas em amor à primeira vista ou tenho que passar por aqui mais uma vez?”

Não, não tem 14 anos, é ilegal trabalhar com essa idade. Engana bem, hein?

O astrónomo: “O teu pai é ladrão? É que teve de roubar todas as estrelas do céu para te pôr nos olhos.”

Morri de novo.

O astrónomo brega: “Ó estrela queres co-meta?”

Um clássico.

E agora para o grand finale presenteio-vos com uma compilação de agora em diante designada por escalada gastronómica: “Queres açúcar meu torrãozinho? /Queres mel minha abelhinha? / Queres leite minha vaca? / Queres chouriço minha porca? / Queres pixa minha puta?”

Safa, que fiquei sem fôlego.

Fin.