Lá arranjei coragem para ver o Nymphomaniac vol. I do Lars von Trier. Suponho que uma parte de mim esperançava que fosse excitante. Ó inocência. O tipo é louco. O filme é ótimo, mas o desconforto completo. A descrição da psicopatologia, apesar de angustiada, é certeira. Não pretendo passar pelo sofrimento de ver o vol. II. Mesmo no meu ecrã de computador de 15 polegadas será certamente capaz de esquartejar a minha libido e abandonar os seus restos mortais em locais recônditos. Sei que demorar-me-á uma eternidade a colar os seus pedaços zombies e restabelecer uma vida sexual normal. É o tipo de coisas que não se arrisca.

Bom, mas vamos às definições.

Ninfomania

Há quem pense a ninfomania como uma dependência, um problema de impulsividade ou como hiperatividade da libido, não há um consenso. Vamos encará-la como comportamento sexual compulsivo, ou seja, incontrolável e excessivo. Na sua base estão pensamentos obsessivos e intrusivos (sobre sexo, claro está), também estes ingovernáveis. Os resultados possíveis deste tipo de motivação: múltiplos parceiros sexuais (adoro pronunciar esta expressão), masturbação compulsiva, consumo de pornografia compulsivo e relações sexuais – adivinhem lá – compulsivas.

Assim à primeira vista não parece mau de todo mas causando mal-estar clinicamente significativo (outra expressão incrível) para o próprio e, acreditem ou não, incómodo (vá) para terceiros – que servem os propósitos utilitários de um brinquedo sexual -, é capaz de se tornar num problema chato.

Promiscuidade

Vou ignorar a definição da wikipédia. Põe lá à mistura a “poligamia” e o “fetiche” e enubla tudo. Promiscuidade remete para “confusão” e “desordem” e/ou para comportamentos “anti-moral”. No sexo, comummente, implica múltiplos parceiros sexuais. Lá está a expressão outra vez. Reparem como adquirem uma postura atitudinal sabidona ao proferirem “múl”, que acompanham com um arqueamento subtil de sobrancelhas e um meio sorriso escarninho que antevê a verbalização de conteúdo sexual e o legitima simultaneamente, por expressá-lo de modo tão cerimonioso. “Múltiplos parceiros sexuais”. Ah.

Múltiplos. Isto é, mais do que um. Contudo, mais do que um parceiro romântico? Mais do que um por semana? Mais do que um ao mesmo tempo? Hum. E quanto ao nível de promiscuidade? Quanto mais parceiros maior o grau de promiscuidade? Nesse caso ter um amante é menos promíscuo do que participar numa orgia. Ou será que é uma questão de frequência? E, assim, ter casos extraconjugais durante um ano é mais promíscuo do que participar em orgias ocasionais. Definições, definições…

Os factos: cada um julga o que é promíscuo de acordo com a sua moralidade. Felizmente ou infelizmente, não sei bem.

Ninfomania versus Promiscuidade

Em termos comportamentais a primeira é uma perturbação; a segunda é o que se quiser. Portanto não venham cá desculpar a promiscuidade com um estado ninfomaníaco. “Ah e tal ele trai montes de vezes a namorada porque é ninfomaníaco”. Nop, não é por isso. Claro que se for uma mulher mais dificilmente se lhe legitima o comportamento com uma doença mental… Essa tipa cheia de parceiros é certamente uma grandessíssima promíscua (dos quais este será o insulto mais levezinho).

Portanto, das duas uma, ou estabelecemos um algoritmo justo que calcule a promiscuidade com a eficiência – pois a ninfomania teoricamente é diagnosticada com bom julgamento clínico – ou teremos que reabilitar o conceito (esta ideia não é nova nem é minha).

Tenho dito.