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Quem nunca ouviu falar da história da bolacha? Aquela em que cada criaturinha borbulhante de testosterona batia uma punheta para cima de uma bolacha Maria e aquele que não se viesse comê-la-ia por fim. Uma daquelas atividades praticadas em roda com topping de bullying. Sou muito gráfica, eu sei, apesar de não estar certa de me encontrar a efetuar um relato fiel deste episódio mitológico. Mesmo que a bolacha seja uma mera figura arquetípica da adolescência masculina implicava bater punhetas em conjunto, disso tenho a certeza. E é aí mesmo que quero chegar. Enquanto eles participaram em orgias masturbatórias orientadas para o desempenho, a elas impingiram-lhes o sonho do amor e da afetividade pelo qual deviam aguardar passivamente. Não pensem que vou iniciar um dos meus habituais discursos feministas. Neste caso, devo dizer, não consigo decidir quais das expetativas sociais são mais danosas para a saúde mental e sexual – se as de performance, se as da ilegitimidade masturbatória.

Comecemos pelos rapazes. “Já sai água!”, confidencia alguém após o ato desesperado de espremer a pilinha até ela confessar uma irritada vermelhidão pré-púbere. Tudo isto porque ouviram contar a um miúdo amadurecido que já tinha sonhos molhados e agora já batia umas a sério. E assim se principia o ciclo de partilha masculina dos conseguimentos sexuais (a palavra conseguimento ainda é mais fixe quando prefixada com “in”). A partilha dá-se em ambiente de balneário ou até na sala de aula. Não há qualquer motivo para sentir vergonha. Ao contrário, ostenta-se cada aquisição desenvolvimental como um grito que soa a “Já sou capaz (e tu não)”, e a roda continua a girar, acumulando feitos e patifarias sexuais, culminando não infrequentemente nas minhas conhecidas “Disfunção Erétil” e “Ejaculação Prematura” (eu trabalho em saúde sexual). É que quando uma pessoa começa a sentir pressão para o desempenho sexual ainda antes da possibilidade física da sua fruição temos já um ingrediente indispensável à disfunção.

as adolescentes falam de príncipes encantados, amores platónicos e, a certa altura, de curtes (ainda se usa a expressão?) e de namoros. Falam pouco sobre sexo e ainda menos sobre masturbação. Apesar da “Cosmopolitan” disparar subtítulos como “5 Técnicas para se masturbar no chuveiro! Pensa que é a única mulher que se masturba?”, declarando a normatividade da coisa (enquanto nos agrilhoa a ideais de beleza inalcançáveis), todas sabem que é uma coisa demasiado feia para ser conversada. O desenvolvimento sexual feminino é fundamentalmente passivo. Quando lhes acontece serem tocadas e apalpadas são impelidas a abordar o assunto. “E o que fizeste? Deixaste?” “Ao início não, mas fui deixando aos pouquinhos…”. Ai de quem ouse tomar as rédeas da sexualidade ou não mais verá o seu nome gravado nas mesas estudantis sem o apêndice “puta” ou “saca-bicos”. Ao lado do “Joana loves Pedro” e do clássico “Se carregares neste botão a tua professora desaparecerá”. E nem mesmo a Raquel Saca-bicos vai assumir que tem orgasmos aos 14 anos. Sozinha. Porque pior que fazer coisas aos rapazes é ser parte ativa no próprio prazer. Masturbação, essa coisa suja. Talvez seja por isso que as adolescentes passam tanto tempo no banho (e não porque deixam máscaras capilares a atuar). A EPAL fica a ganhar. Os problemas sexuais também.

Quanto à bolacha, se alguém a comeu, permanece um segredo tão bem guardado para mim como o facto dos tipos da EMEL conseguirem dormir de noite. (Achei que podia juntar bullies e psicopatas na mesma frase).

The end.