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Aos 8 anos perguntei à minha mãe como se faziam os bebés. Nesse momento o meu pai passava pelo corredor e continuou a sua viagem, falsificando um olhar distraído. Não me lembro, mas devo ter deixado a minha mãe numa sucessão de vocalizações onomatopaicas do género “Hum, Err, Pois, Hum”. Nessa altura os meus pais resolveram comprar-me um livro, a “Educação Sexual dos 8-9”. Lá o li, porque tinha um trabalho sobre o assunto para entregar na escola, mas acho que a certa altura voltei a questionar a minha mãe “Afinal como é que é?!” Já o meu irmão nunca colocou os nossos pais em tamanha aflição. Sempre foi um rapaz esperto.

Ainda me lembro da textura escorregadia do latex enquanto um líquido aguadilhado mas unguinoso se espalhava nos meus dedos numa sensação simultaneamente quente e fria. E daquele cheiro, que parecia ficar connosco entre lavagens. Tinha 11 anos. Não sei como seria nas outras escolas mas eu orgulho-me de ter tido educação sexual uma vez por ano desde então. Era muito giro. Falávamos do período, aprendíamos a colocar preservativos e até podíamos fazer perguntas à Sr.ª Enfermeira que vinha de propósito do Centro de Saúde de Carnaxide. No momento em que me aparecesse uma pila sabia que tinha de lhe enfiar aquela espécie de balão de água untoso, apertando a pontinha e desenrolando devagarinho e nunca, NUNCA, rasgar o invólucro com os dentes, sob pena de ter girinos a fazer-me bebés. Também me lembro do insight tardio, da média adolescência, acerca do sabor a morango ou a chocolate daqueles preservativos que esbanjavam as Juventudes Partidárias nas listas das AEs no período de eleições. Estou a brincar, não nos davam preservativos de sabores, apesar de no outro dia ter encontrado um desses presidentes da secundária perto do Parlamento. Deve ser deputado. Se as ofertas soubessem a baunilha já era de Presidente da Câmara para cima, de certeza.

Voltando à minha aula sexualmente educativa anual. Não proporcionou conhecimentos ao nível da resposta sexual ou tão pouco das práticas possíveis (felizmente havia o Canal 18), por se tratar de matéria de “educação sexual e reprodutiva”, sendo que claramente se olvidaram da primeira parte. Pronto, pronto, é verdade que me ensinaram da SIDA. Portanto aprendi sobre a menstruação, o preservativo e sobre o vírus HIV. Podia ter sido pior mas também podia ter sido educação sexual.

Os filmes foram importantes. A primeira vez que visualizei um estava sozinha em casa de uma amiga. Ainda estava na escola primária. Ela desencantou um filme do pai e quis mostrar-me. Lembro-me muito bem de me perguntar “quando vês um filme e as pessoas se estão a beijar ou a despir não sentes o pipi apertadinho ou uma espécie cócegas?” “sinto, sim”, teria respondido hoje. Recordo-me de tão pouco desses tempos mas lembro-me disto como se fosse ontem. E do entusiasmo do Canal 18. Era frequentemente o tema de conversa matinal entre os rapazes. Já eu, rapariga, tinha uma desautorização tácita de me reportar a estas coisas nojentas dos rapazes. Mas lembro-me de ver uma senhora a fazer xixi enquanto alguém lhe enfiava as mãos. Achei muito estranho, mas não fiz perguntas.

Não tenho dúvidas que foi com os meus amigos rapazes que aprendi mais acerca de sexo e de afetos na adolescência. Nas colónias de férias, em que os monitores também uniam esforços como educadores sexuais, ou nos fins de semana que passávamos em casa uns dos outros. Obrigada por me contarem das vossas paixões, fantasias e punhetas, sem elas a minha identidade sexualizada seria certamente outra coisa qualquer. Tenho pena de só vos ter contado dos meus amores platónicos. Talvez os nossos filhos façam diferente ou talvez as filhas continuem somente a escutar com muitos ouvidos (ainda não percebi bem para onde vamos).

Tenho que agradecer aos meus pais, que nunca fizeram distinção entre as minhas dormidas em casa de rapazes ou raparigas. E lembro-me tão bem dos medos dos outros pais… Pénis, sexo, gravidez, “dormir com rapazes nem pensar”. Posso nunca ter falado acerca de sexo abertamente com os meus mas suponho que o facto de permitirem que passasse férias com seres demoníacos cheios de esperma transmitiu-me a noção implícita que a intimidade e sexo não são coisas monstruosas. Nunca dei sequer beijinhos aos meus amigos, limitei-me a conversar pela noite dentro e adormecer perto deles. E quando o primeiro namorado dormiu lá em casa, aos 21, nem se pôs a hipótese de dormirmos em quartos separados. Quão hipócrita e anedótico seria? Suponho que educar, a certa altura, seja isso mesmo, autonomizar em segurança: fazer figas, fechar os olhos e esperar que corra tudo bem.

Podia também falar dos principais responsáveis pela minha deseducação sexual e do lixo que impõem às rapariguinhas, as Super Pop, Ragazzas e, mais tarde, a porcaria da Cosmopolitan – ou não. Outro post.

Até sempre.