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Aparentemente “puta” deriva de “poda” e remete para um ritual pagão que implicava um bacanal de oferenda à Deusa, numa celebração da poda das árvores. Isto tem piada porque eu tenho um amigo que a certa altura se dedicou à jardinagem e frequentou, inclusivamente, um workshop de “poda”. Muitos tomaram esta ocupação de tempos livres como algo peculiar, bizarro até. Tivesse eu ido à wikipédia mais precocemente, teria sido inundada de imagens mentais do Ricardo, rodeado de hippies em dádivas à Deusa e amando a Terra. É que assim é muito mais fácil perceber a preferência por tal hobbie. Anyway, o que me parece é que antes de o Rei Artur andar lá à traulitada com os pagãos, havia umas coisas dignas de importância a acontecer. Depois veio a Igreja e a mea culpa mea culpa e pode passar-se uma vida a tentar expiar o nosso interesse sexual. Mas eu queria chegar a uma definição:

Puta

Mulher que se prostitui = Meretriz, prostituta, rameira.

Mulher que tem relações sexuais com muitos homens.

Acho que isto de ser puta tem muito que se lhe diga. A expressão é comummente depreciativa. No entanto, desbravou territórios inauditos e viajou dos quartos das “mulheres do prazer” (é o que significa prostituta em holandês – giro, não? – talvez explique porque os holandeses têm uma visão mais positiva e protetora das trabalhadoras sexuais) até aos dos comuns mortais. Entre muitos casais, imagino eu, operou-se a uma reabilitação da expressão e o que é excitante passou a ser putaria. Este revés irónico da história agrada-me particularmente. Ao mesmo tempo que “puta” é possivelmente o insulto com maior carga emocional para uma mulher, há um contexto em que é uma coisa boa. Gostar de sexo e procurar o prazer – ser puta – é possivelmente o ingrediente mais excitante numa relação sexual.

Acho que devia enriquecer por providenciar esta informação. Décadas de publicações cor-de-rosa em que são desvendados “Os 5 segredos para o seduzir”, “10 truques que o vão deixar doidinho” quando basta uma coisa só…

Gostar de sexo.

O foco está errado desde sempre. A forma como fazemos as coisas interessa muito pouco, até porque se prestarmos distraidamente atenção ao que estamos a sentir é quase intuitivo (mesmo que mude de relação para relação); o que interessa é querer estar a fazer o que se está a fazer. Isso sim ensandece qualquer um de luxúria. Portanto, se alguém quer desvendar os subterfúgios de providenciar prazer ao outro, só tem que fazer uma coisa: permitir-se a ter prazer, o resto vem.

(Estou obviamente a desconsiderar todos os ignóbeis que querem putinhas na cama e queridinhas para casar, que ainda os há, e desaprovo qualquer tentativa de lhes agradar).

Se gostar de sexo é ser puta, então quero ser puta. Puta, rameira, mulher do prazer. Quero ser isso tudo.