Archives for the month of: Abril, 2015

SP

As férias fazem mal, toda a gente sabe. Três semanas de Brasil tornam qualquer atividade laboral indigesta. Por isso mesmo, enquanto mantiver o jetlag, pretendo alimentar o corte com a realidade e reviver os meus últimos dias, outrora menos vestidos.

Esperava em São Paulo encontrar amigos e as memórias de outros amigos, que por lá viveram, e comida, muita comida. E encontrei. Disseram-me que não ia encontrar amor mas sexo, meus amigos, não falta. Por onde começar? Pela porta de minha casa.

Bem à minha porta, na Praça Roosevelt, encontrava uma moradora de rua transexual dormindo sobre caixotes desmontados e imundos. Todos os dias me obrigou a imaginar o que a levou ali, se a identidade sexual contrária ao que lhe foi atribuído, se outra coisa qualquer. Depois havia os skatistas. De todas as categorias. Alguns deles um pouco trans. São Paulo tem tudo em tanta quantidade que até os skaters podem expressar géneros. Depois há os puteiros (aka bordéis) cheios de meninas à porta, que podem muito bem ladear um boteco (bar/tasca) ou uma academia (ginásio), e assumir com toda a ligeireza a atividade a que se dedicam. Poderia continuar a discorrer acerca de diferenças, mas vou focar-me nas linguísticas. E não, não abrasileirei, mas estou preparada para acusações dos mais puristas. Já é o que é por causa do acordo… Ora bem,

Por favor não expressem “Dói-me imenso o rabo” em lugar algum, muito menos na bicha do supermercado. Em minha defesa, quando estava em Ubatuba, Estado de São Paulo, escalava morros com pelo menos 30% de inclinação para desembocar na pequena praia do Cedro. O problema era a volta, que implicava um enorme esforço de travagem do grande e médio glúteos, de modo a não rebolar morro abaixo. Aparentemente “rabo” é uma das variadas expressões desemparelhadas entre os dois países irmãos. Julgo que todos aqueles paulistas julgaram que o meu fim de semana tinha implicado uma enorme surra de piroca anal, a avaliar pelos olhares curiosos de que fui alvo. É um pouco como perguntar “Tem café de saco?” – uma péssima ideia. Qualquer lojista português indicaria o caminho para filtros e moagem de cafeteira. Contudo, em português do Brasil, “saco” é a expressão comummente empregada para designar escroto. Escroto! Como se não bastasse espalhar aos quatro ventos que tinha o ânus em agonia, ainda buscava revitalização matinal com néctar testicular. Ótimo.

Mas não acaba aqui. As confusões multiplicam-se. Experimentem perguntar a pessoal simpático do Pará – um Estado do norte do Brasil que parece que tem uma feijoada verde que é uma delícia – “Opa, estão a gozar comigo?”… Silêncio. Confusão. Gargalhadas ensurdecedoras. Leonor Oliveira, líder em imagética pornográfica desde Abril 2015. Eu sabia o que significava, ok? Mas esqueci-me (por diversas vezes). “Vamos dançar todos nus e ter orgasmos simultâneos, meus bons amigos do Pará e da feijoada verde”, foi o que eu lhes disse, no fundo.

Ah mas a vingança portuguesa foi bela… Nada como questionar companheiros de língua de um continente distante acerca do possível significado de uma expressão – autoclismo, no caso. Despeço-me com uma entrada do dicionário informal das minhas férias:

Autoclismo, s.m. (auto + [cata]clismo)

Clímax sexual resultante do estímulo manual e/ou mecânico dos próprios órgãos sexuais.

São Paulo é avassaladora. Difícil de perceber. São Paulo são muitas São Paulo e aterrar nela é perdermo-nos num cenário inimaginável de concreto armado (que é como se diz betão nesta língua, que é a minha mas não é ao mesmo tempo). São Paulo não acaba.

São Paulo é alta também e só quando subimos às suas alturas nos encontramos novamente. É que lá em baixo, no nível térreo, nos sentimos perdidos porque não enxergamos o que vimos da aeronave. E São Paulo fica quase pequena e mesquinha. Maltratada e mal amada. Cheia de morador de rua, de sujeira e de feiura. Depois subimos ao Martinelli e ficamos aliviados. “Estou aqui”. É que causa muita estranheza a uma lisboeta não ter colinas nem referências, só betão em altura. Concreto, isto é. 

E depois há o pôr do sol. Tão perfeito do topo da praça Roosevelt, onde fica a minha casa paulista. Como esta cidade feia fica linda ao pôr do sol. Não é o pôr do sol que é lindo, é São Paulo.

Estive a pensar e talvez devesse se chamar só “Paula”, porque é claramente uma mulher, que não é santa nem é sã. São Paulo é, na verdade, uma puta, contou-me o meu amigo Henrique, “a gente usa e fode ela o tempo todo”, “Lisboa é mãe solteira”. Roubaram os jardins e a água a Paula mas Paula continua a parir e a servir a gente. Paula chega para todos. 

Estou agora no Rio e chove. Vim de Ubatuba, ou “Ubachuva”, e antes de Paula, e não choveu. 

Nota: este artigo foi escrito ao abrigo do artigo que bem me apeteceu.