São Paulo é avassaladora. Difícil de perceber. São Paulo são muitas São Paulo e aterrar nela é perdermo-nos num cenário inimaginável de concreto armado (que é como se diz betão nesta língua, que é a minha mas não é ao mesmo tempo). São Paulo não acaba.

São Paulo é alta também e só quando subimos às suas alturas nos encontramos novamente. É que lá em baixo, no nível térreo, nos sentimos perdidos porque não enxergamos o que vimos da aeronave. E São Paulo fica quase pequena e mesquinha. Maltratada e mal amada. Cheia de morador de rua, de sujeira e de feiura. Depois subimos ao Martinelli e ficamos aliviados. “Estou aqui”. É que causa muita estranheza a uma lisboeta não ter colinas nem referências, só betão em altura. Concreto, isto é. 

E depois há o pôr do sol. Tão perfeito do topo da praça Roosevelt, onde fica a minha casa paulista. Como esta cidade feia fica linda ao pôr do sol. Não é o pôr do sol que é lindo, é São Paulo.

Estive a pensar e talvez devesse se chamar só “Paula”, porque é claramente uma mulher, que não é santa nem é sã. São Paulo é, na verdade, uma puta, contou-me o meu amigo Henrique, “a gente usa e fode ela o tempo todo”, “Lisboa é mãe solteira”. Roubaram os jardins e a água a Paula mas Paula continua a parir e a servir a gente. Paula chega para todos. 

Estou agora no Rio e chove. Vim de Ubatuba, ou “Ubachuva”, e antes de Paula, e não choveu. 

Nota: este artigo foi escrito ao abrigo do artigo que bem me apeteceu.