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Trabalho ao telefone com pessoas de todo o mundo que procuram apoio psicológico. Ligam-me poucas vezes por questões exclusivamente sexuais mas muitas em consequência de problemáticas diversas do matrimónio, num espetro que se estende do incumprimento das tarefas domésticas até, claro, à traição. Esse flagelo relacional. Ligam-me porque não conseguiram ultrapassá-la, porque gostariam de fazê-lo ou por culpabilidade. Já assisti tanto ao término como ao progresso conjugal no seguimento destes adventos. Já empatizei quer com traídos, quer com traidores, sem grandes diferenças na minha modulação emocional. A verdade é que não estamos livres de ser um ou o outro, mesmo que assim julguemos.

Sobre a traição

A traição tem muitos feitios. Aconselho o TED Talk da Esther Perel para aqueles de adesão fácil ao trabalho de casa. E. Perel, terapeuta de casal, conta-nos que adultério destrói a nossa segurança emocional e noção de “eu” – que é como quem diz implode-nos autoestima e, como se não bastasse, ainda desafia tudo o que sabíamos sobre nós e sobre o mundo. Um bocado como perceber que não existe Pai Natal ou Deus ou, pelo contrário, que existem marcianos ou assim. É traumático. Deixamos de existir como seres dignos de amor para nos tornarmos numa amálgama de dúvidas do género “O que foi que fiz?” e de certezas como “Se ao menos eu lhe tivesse feito um broche de vez em quando…”. Sim, porque toda a gente sabe que os homens traem por falta de sexo. Por outro lado, e se adotarmos o mesmo nível de compreensão dos fenómenos, eu arriscaria explicar a traição feminina como resposta ao mau sexo, não pela ausência de. (Reparem como é impactante terminar uma frase com uma preposição). Mas vamos tentar não resumir tudo ao sexo.

Então, porque é que as pessoas traem? Na lógica popular as pessoas traem porque não são felizes, porque “lhes falta qualquer coisa”. Nas teorizações dos psicólogos e terapeutas familiares, da Psicologia Sistémica, as pessoas traem porque já foram “traídas” antes, isto é, porque já houve um investimento noutra área de vida ou relação privilegiada. Defendem, no fundo, que à traição sucede sempre outra traição – com o trabalho, com os filhos. Esther Perel diz outra coisa, diz que numa traição não estamos a voltar as costas ao nosso parceiro/a, estamos a fugir da pessoa em que nos tornámos. Como se estivéssemos tanto à procura de outrem como de um eu novo (ou antigo). Só há um pequeno problema: é que isto de deixarmos de ser “eu” tem tanto ou mais a ver connosco mesmos do que com qualquer outro. Daí que os nossos amigos, e até nós próprios, em lapsos de brilhantismo, defendamos “Tens é que estar sozinho, até para perceberes o que queres”. Uma lógica clara e indiscutível com um pequeno senão… É que nunca deixamos de nos ver pelos olhos dos outros. Por isso é que é positivo rodearmo-nos de pessoas fixes. E ainda há outra: tendemos a procurar outros que nos olham com os nossos olhos. Bela bosta, a existência humana.

 Mas ainda há o amor

Como estou contaminada pelo discurso pessimista acima, vou começar por referir que não acredito em almas gémeas predestinadas ou em outro tipo de desígnios inexoráveis. Tal comporta questões. Se não creio num outro à minha imagem ou complementar – ou o que quer que seja uma alma gémea – ou é porque 1) não existem ou porque 2) existem muitas. A avaliar pela quantidade observável de matrimónios talvez a segunda opção seja mais realista. Ora, se há uma infinidade de possibilidades para mim, estas também não se esgotam na minha pessoa para a minha outra metade, que pode muito bem desapaixonar-se, enamorar-se, trair… Se pensarmos muito no assunto é bem provável que soframos uma apoplexia. Mas, como me preocupo com a esperança de vida, vou focar-me no outro lado da coisa: quando alguém decide estar connosco significa que preteriu os outros 6 mil milhões. O facto de tal não ser a consequência de um alto desígnio cósmico e sim da livre escolha de alguém é incrível. É-o, sobretudo, porque não somos “especiais” para outro porque alguém intercedeu por nós, somos simplesmente escolhidos apesar dos outros, frequentemente mais belos e mais espertos. Não sei bem onde quero chegar com esta conversa mas julgo que a ideia fundamental é que gostaria que as pessoas se preocupassem menos com a traição e reparassem mais no amor. Outro bom trabalho de casa seriam visualizarem um outro TED Talk, da Helen Fisher, porque sei que hoje já me estou a exceder na verborreia Carrie Bradshaw.

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Vem um GIF. Pois é. Isto porque eu gosto de aproveitar todas as ilustrações da Filipa, que me enviou duas para o tema que seguirá… A traição! (e o amor e cenas). Gostaria ainda de me desculpar por este interregno. Não foi (só) culpa minha. E não, não estive de férias – o meu callcenter continua tão animado como sempre. O problema foi mais ao nível dos artefactos e das pessoas.

O meu computador desenvolveu uma qualquer enfermidade que lhe dá uma absurda lentidão que, para pessoas como eu, com dificuldades mentais seríssimas no campo da resistência à frustração ao bloqueio tecnológico é o mesmo que dizer existiram lágrimas, insultos àqueles que mais bem me querem e uma pré-rotura psicótica. Bom, talvez esteja a exagerar, mas foi mesmo mau. E ainda pior foi a minha batalha pré-legal com a FNAC do Chiado que me vendeu um equipamento estragado e demorou cerca de 2 meses a devolver-me o seu valor. Acabei a comprar outro computador na FNAC, imaginem lá. Parece estar operacional, mas isso deve-se ao escrutínio obsessivo do meu pai, que colecionou as características de todas as máquinas para o meu plafom e criou uma base de dados extensa em Excel, para facilitar a minha decisão. 349.99 euros depois cá estou eu. Sim, sou esse tipo de forreta.

Como veem a minha escrita não está com aquela fluidez do costume, o que se deve provavelmente ao facto de o meu cérebro existir em inglês americano 45 horas por semana. Vamos ver como corre.

O próximo post será sobre a traição e o amor. Cheers.