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Ando a tentar ressuscitar o blogue do mundo dos mortos. Passando os olhos nos muitos posts que deixei a meio, apeteceu-me pegar neste. Pretendo contar-vos como cresci a olhar para a homossexualidade.

Não tenho grandes memórias de o assunto me ser explicado mas vislumbrei-o na minha infância. Lembro-me que quando o meu pai trabalhava na Grande Noite (sim, essa – podem cantar “grande noite, grande noite / hoje vai ser a grande noite!”) conheci o João Baião. O apresentador do inesquecível Big Show SIC forçou uma expressão de desiludida surpresa por conhecer os espécimes da descendência do, à data, assistente de realização. Foi talvez a primeira vez que me lembro de reconhecer que alguns homens gostavam de homens, e não de mulheres. Envergava um fato de lantejoulas o que me deve ter levado a concluir que era coisa das pessoas do mundo do espetáculo. Talvez tivesse 7 ou 8 anos (a minha mãe corrigir-me-á se for o caso, assim que ler este post).

Na entrada da adolescência o conceito foi-se complexificando, nem sempre da melhor forma. Lembro-me do R., que descolorava o cabelo e usava calças de mulher, só se dava com raparigas e a quem chamavam obviamente “paneleiro”. Ou da F., mais tarde [o] M., que aos 13 anos rapou o cabelo e se fazia sempre acompanhar de uma bola de futebol e parceiros para jogar. Para mim, o R. era certamente gay, já a F. (na altura ainda a pensava mulher) deixava-me extremamente confusa. Pairavam atrás de si sentimentos de estranheza e desconforto na origem de teorias sussurradas acerca da sua homossexualidade latente, que certamente a motivaria A aproximar-se de raparigas disfarçada de rapaz. Claro que me bastaria ter reparado como os seus piropos me agravavam a feminilidade para ter alguma luz sobre o assunto. Só um homem particularmente homem me faria sentir tão vulnerável e assediada (tão mulher). F. não era lésbica, era um homem trans heterossexual. Como teria sido útil a todos os envolvidos termos tido aulas de educação sexual…

Depois veio o secundário e o idealismo juvenil. Claro que defendi os direitos dos gays! (E a despenalização do aborto) — Não esquecer que cresci num melting pot privilegiado à esquerda — Já das lésbicas não me lembro muito bem. Mas não sou só eu. Curiosamente o mundo continua a esquecer-se delas, é só entrar num festival Queer e comprovar. Suponho que o facto de serem mulheres as torna à partida desinteressantes e invisíveis.

Cheguei à Faculdade de Belas Artes em 2004. Aí é que foi. Imersa na permissividade elitista do meio artístico tive efetivamente contacto com pessoas de todas orientações sexuais, até bissexuais, vejam lá. E uma nota: não havia melhor que as Festas da Anita com Bandidos Desesperados nos discos – e de cuecas abaixo das nádegas. Por esta altura o meu reconhecimento das várias orientações já não era mau.

Eventualmente lá veio a Psicologia e um namorado católico. Eu, que até estava no bom caminho, regredi no que toca a estes conceitos. A culpa não foi do namorado, devo dizer, foi mesmo do curso. Começa por discutir-se o que é inato e o que é desenvolvido e num ápice aprendemos que a homossexualidade é culpa da mãe e que não há bissexuais de verdade. WOW. Outra vez: WOW. Assim se compreendem as origens das teorias populares que postulam que “os gays são meninos da mamã” e que “os bissexuais são gays dentro do armário”.

O mais decisivo foi trabalhar num restaurante mexicano no Soho, em Londres. Acho que existirão poucos locais mais queer. Heterossexuais “puros” escasseavam e a diversidade era a norma entre tacos, guacamole e margaritas (sobretudo entre margaritas). Lembro-me de uma vez ter ido beber uma pint a um Pub vitoriano em Little Venice com a L., que me disse com o seu inglês madrileno “Se eu podia aprender a gostar de sexo com homens? Provavelmente. Mas porque é que haveria de o fazer?”. Esta elaboração, muito simples aos olhos dela, foi para mim um daqueles momentos em que se alinham quatro pares de cerejas numa slot machine e se ouve “tlim tlim tlim”.

A orientação sexual, isto é, a preferência por determinado objeto sexual, até pode oscilar. Muitos de nós são relativamente fluidos e movimentam-se no espetro da sexualidade ao longo do ciclo de vida (prefiro contínuos a categorias). Mas não pode mudar, isso não. Pelo menos não por influência externa.

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