Archives for the month of: Janeiro, 2017

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Não publiquei neste blogue durante mais de um ano, o que não quer dizer que não tenha escrito aqui e ali. Passei a colaborar numa “rede de curadoria sustentável”, A MONTRA / THE WINDOW, e esbocei uns quantos textos novos. Acabei por nunca os publicar porque não lhes encontrei nenhum fim digno (o que é algo particularmente pretensioso para alguém que não escreve). Pensei então em matar este blogue. Uma vez mais, preocupada com a dignidade da coisa, refleti: “posso pegar nos textos melhorzinhos e tentar publicar (e depois mato isto)”, pelo que os reli a todos. Processo traumático este, já que me confrontei com o meu próprio lixo. Não encontro um todo coerente publicável, mas confesso que me voltei a rir com alguns posts. O que publico de seguida foi uma compilação de texto antigos, com que me inaugurei n’A Montra. A ilustração, como sempre, é da Filipa Pinto.

Maravilhas da vida a dois

Os níveis de intimidade evoluem. Inicialmente o simples facto ruidoso do embate da urina nas paredes de loiça sanitária parece uma catástrofe que tentamos evitar soterrando a mesma de papel higiénico, experimentando danças desequilibradas em busca daquele local específico em que cada sanita permite escorrimento ao invés de soar em jato, ou procurando separar o xixi em vários xixizes sumidos e muito pouco satisfatórios. Felizmente isto passa.

Depois do primeiro xixi vem o primeiro acordar, se é que dormiram efetivamente. Para pessoas como eu, com necessidades muito especiais ao nível da luminosidade e temperatura, no máximo percorreram hiperativamente sonhos desconexos em que a consciência corporal de se encontrarem numa cama estranha nunca vos abandonou. Depois “acordam” e se forem do estilo amoroso dão beijinhos. Péssima ideia, considerando o ecossistema pestilento que marinou durante a noite em cada cavidade bucal. Se foram céleres o suficiente provavelente conseguiram escapulir-se para esfregar pasta de dentes do parceiro/a e bochechar, fingindo que aquele forte gosto mentolado é a vossa fragrância natural. Talvez até o tenham feito ambos, prevendo práticas matinais, dando início à beijaria como se não reparassem na bizarria que é ter a boca fresca debaixo de lençóis às 8h da manhã.

Mas as desatenções multiplicam-se, como aquele primeiro pum que vos traz das profundezas da sonolência para a realidade crua do silêncio ensurdecedor que é o de tentar averiguar se todos os envolvidos despertaram ou se apenas o emissor de gás. Qualquer alteração respiratória conta. A tensão instala-se, esperam-se movimentos delatores de reconhecimento da emissão cheirosa e o cérebro grita um quase audível “Merrrrrrrrrda! Porquê?” (já lá vamos também). Se tudo correr bem os implicados fingirão não dar pela ocorrência e, brevemente, aperceber-se-ão da diversidade de vocabulário existente à disposição para designar a flatulência humana – pum, peido, bufinha ou outro qualquer nome queriduxo –, adotando uma expressão que aprouver a ambos ou continuando a ignorar incidentes semelhantes.

E há um nível acima, o derradeiro. Cocó. Não há como negar que este é um aspeto importante da vida a dois. Da vida de qualquer um, aliás, mas, por razões diversas, até se dar o seu reconhecimento como atividade mundana o casal passa por um processo de dessensibilização sistemática (em que são efetuadas aproximações sucessivas ao ato de evacuar até este ser finalmente aceite). O processo pode ser muito célere ou muito moroso. Alguns, mais despreocupados, conferirão ao ato de defecar exatamente o estatuto de banalidade que merece. Outros comportar-se-ão como se fosse um ato sagrado que deve desenvolver-se em total privacidade e com desconhecimento do parceiro, sobretudo quando se trata de uma mulher – toda a gente sabe que as mulheres não fazem cocó. Claro que há sempre a terapia de choque, mas vou abster-me de descrever para proteger os leitores sensíveis.

Falta agora encarar a sexualidade real. O nível de frequência cai drasticamente e as práticas orais matutinas ficam sagradas a ocasiões especiais. Especialíssimas. Já que as imposições laborais voltam a importar e a apresentação de uma autoimagem de hipersexualidade deixa de preocupar. Esta adequação de expetativas ocorre naturalmente e é concomitante com o desenvolvimento de outros hábitos.

Passa a dormir-se de pijama, o que é um alívio. Bem sei que dormir nu ativa a produção de não sei o quê – não vou atestar a veracidade da informação –, que é muito positivo para a sensualidade e até melhora a qualidade do sono. Muito bonito, sobretudo se for numa sesta encalorada de Verão, mas a perspetiva de sentir penugem do meio das costas a mover-se ao ritmo da expiração alheia é o suficiente para me pôr já com insónias.

Fazer sexo evolui para fazer amor. Passa, inclusivamente, a ser ofensivo designar o ato de forma a não explicitar uma jura eterna. E partilham e curam-se doenças lado a lado, inclusivamente as genitais. O recurso ao Gino-Canestan (cujo prefixo leva a pensar erradamente que a aplicação tópica se processa somente em vulvas), esse ato carregado de lascívia, é elevado a conversa de cabeceira, como se a convivência de estados gripais não fosse já suficientemente desaprazível.

***Artigo original aqui.

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Parece que tenho que ter uma conta premium para partilhar videos. Até lá:

Zen

O primeiro dia do ano pode muito bem ser o mais preguiçoso, sobretudo se coincidir com um domingo. Imagino parceiros em todo o mundo a recuperar das festividades entre o sono e o amor. Este é um dos pequenos filmes da revista Nowness da série “Sex and Sensibility”. Bom ano aos que se amam a si e aos outros neste início de 2017.