Posso ser feminista e gostar do 365?

O plot: um chefe da Máfia rapta uma rapariga polaca por quem ficou obcecado e informa-a de que será sua refém por 365 dias e que não lhe fará “nada” (leia-se, sexo penetrativo) enquanto ela não o desejar. Ao longo da história Massimo restringe-a fisicamente, obriga-a a assistir a atividade sexual enquanto imobilizada, toca-lhe em diversas zonas do corpo, incluindo seios e genitais, e mais um sem número de coisas problemáticas. Laura vai lutando como pode, apesar de ser visível para quem assiste que o seu nível de excitação e atração por Massimo aumenta a olhos vistos. Acaba por ceder depois de este a salvar de um potencial afogamento nas águas idílicas do Mediterrâneo. AHAHAHAHA, o que eu me ri deste salvamento. Quase tanto como nalgumas cenas do Sharknado 5 e nem sequer tinha consumido estupefacientes. Ao que interessa, a partir daqui as cenas de sexo crescem exponencialmente, acompanhadas por uma simétrica descida na qualidade do argumento (se possível): apaixonam-se perdidamente, vão casar (passaram 2 meses), há guerras da máfia, ela é exilada na Polónia sem explicação e, destroçada, pinta o cabelo de loiro, ele vai resgatá-la à Polónia, ela experimenta vestidos de noiva dignos de Carrie Bradshaw, e é assassinada. Pronto, já disse, mas não importa porque vem aí uma sequela. (Não se ofendam com os spoilers que ninguém vê o 365 pela história)

Vocês são adultx mas se quiserem consumir o maior sucesso de soft porn de livre acesso na Netflix sejam críticxs e compreendam que:
– baseia-se numa premissa de não consentimento, apesar de Massimo repetir diversas vezes que “não fará nada que ela não deseje” restringe-a fisicamente e toca-lhe sexualmente sem esta o consentir;
– romantiza o abuso e o humaniza o abusador, que “quer aprender a ser meigo” pois nunca pôde escolher ser diferente;
– conclui que o abuso compensa: Laura acaba por apaixonar-se por Massimo, que revela ser exatamente aquilo de que a protagonista mais deseja.

Então e digam-me lá, podemos ou não ser feministas e gostar do 365?

(Tive uma conversa com o Daniel Vidal da @revista_NiT sobre isto que podem ler aqui.)

Autor: prontoadespir

Sexo descomplicado.

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