Cisgénero

Lembro-me exatamente onde estava quando googlei a palavra “cisgénero” pela primeira vez. Estava a subir as escadas rolantes do metro da Baixa-Chiado, aquelas que parecem infinitas, no sentido da estátua do Fernando Pessoa. Não sei há quanto tempo foi, mas sei que me demorou menos a perceber do que o tempo de chegar à superfície (até porque, provavelmente, um ou vários lances não estariam em funcionamento). O que talvez não seja tão inteligível em unidades temporais do metro de Lisboa são as implicações. Já teria ligação à sexologia nessa altura e como conhecia bem o conceito de “transgénero” não me foi difícil interiorizar este.

Ser cisgénero ou, coloquialmente, “cis” não é mais do que ter uma identidade de género idêntica àquela que nos foi atribuída à nascença, por oposição a ser transgénero/pessoa trans. Reparem, escrevi “identidade atribuída à nascença” e não “sexo biológico”. Contra tudo aquilo que ensinam na nossa deseducação sexual, apresentar exteriormente uma vulva ou um pénis não diz absolutamente nada sobre a nossa identidade de género. Muitas vezes nem sequer reflete a nossa biologia interna (mas esta questão deixo para outro dia). O que acontece é que quando nascemos alguém olha para nós e faz um raciocínio muito básico: “vulva-menina” ou “pénis-menino”. Mas, por esta ordem de ideias, até nos podiam chamar somente “vulvas” ou “pénis”. Se formos a ver bem até daria conversas de maternidade muito mais interessantes. Imaginem a vossa avó quando vos conheceu ter dito antes “ai que rica vulva me saíste” ou “que lindo, o pénis da avó”. 

Enfim, disparates à parte, o que quero que retenham é que ter, aparentemente, vulva ou pénis não diz absolutamente nada sobre o que somos. Mas que com a compreensão de que somos cisgénero, vem responsabilidade. Vem, sobretudo, noção de privilégio. Ao sentirmos ser aquilo que nos disseram que eramos ao nascer, foi-nos concedida uma espécie de paz identitária, que as pessoas transgénero só possuem a muito custo e nunca sem sofrerem opressões e violências várias. Mortes, muitas vezes. Ao sermos cisgénero foi-nos dado, principalmente, o privilégio da segurança. A palavra cisgénero não serve para encabeçar marchas de orgulho nem merece nenhum movimento próprio, serve apenas para refletirmos sobre privilégio. É isto.

Autor: prontoadespir

Sexo descomplicado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s