Intersexo

Há uns anos o meu pai voltava do Queer Film Festival Lisboa algo atónito com a noção de “intersexo”. Por breves instantes trocámos de papéis: ele ouviu, eu doutrinei. Conheço de perto a sensação de me deparar com um fenómeno novo que, normalmente, não tem nada de novo, é só novo no meu armazém de conceitos. Nessas alturas sou obrigada à reorganização das verdades que me vão habitando. Às vezes encontro uma verdade que despeja todas as outras, tipo “o género não é binário”, que não mais permite que noções categóricas de masculino-feminino me habitem. Outras vezes, visitam-me outras verdades que eu deixo entrar e passam a coabitar-me numa existência harmoniosa e progressivamente mais complexa. “Intersexo” é uma destas verdades.

O termo intersexo descreve pessoas diversas que nasceram com órgãos sexuais que não encaixam nas definições binárias de sexo, isto é, de feminino e masculino. Neste sentido não é uma identidade género, mas pode ser (fiquem comigo). Quando digo que não é uma identidade de género refiro-me ao facto de reportar a uma variação biológica e não à identidade que a pessoa escolhe para si. Esta já sabemos que tem variação ilimitada – mulher, homem, transgénero, não binário, trans, e por aí fora. Por outro lado, uma pessoa pode ser assignada intersexo à nascença e não adotar uma identidade intersexo, tendo preferência por uma identidade binária ou outra. Se a pessoa se revir como intersexo, então falar de identidade intersexo. Não é por acaso que há um “i” em LGBTQIA+. Portanto, “intersexo” refere-se tanto a uma identidade, como a uma variação da biologia de base cromossómica, hormonal ou fenotípica. Percebam, no entanto, que a biologia é tão verdadeira como qualquer outro construto social. Sim, a biologia é um construto social (não desistam). Em nome da biologia, as pessoas intersexo foram, e ainda são, sujeitas a todo o tipo de atrocidades médicas por forma a ser “corrigidas”. Estas cirurgias são efetuadas sobre bebés e crianças intersexo para que passem a apresentar a genitália do sexo feminino ou masculino, sem que haja qualquer forma de prever que a pessoa em questão vai adotar o género em que a transformaram. Isto é assumir, como já sabemos, que só há duas formas de existir que são legítimas (uma menos legítima que a outra, claro está, mas isso é outra conversa).

A Organização Mundial de Saúde estima que entre 1 a 4% da população mundial seja intersexo. Não são poucas pessoas. É importante que nos familiarizemos com esta e tantas outras formas de diversidade sexual humana e que continuemos a desafiar as nossas noções de género. No espetro da sexualidade tem de haver lugar para todxs (ou todes).

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