Pornografia ética?

Têm-me colocado várias questões sobre pornografia ética: se existe ou se será um unicórnio, onde se pode encontrar, se é sempre feminista, se tem de se pagar, etc. Vou deixar de lado a discussão sobre “sexo real” versus “sexo pornográfico” porque imagino que a maioria estará ciente de que a pornografia mainstream – vulgo PornHub, YouPorn, e os diversos “Tubes” – não representa o sexo que as pessoas têm, conseguem ou querem ter. Não vou aprofundar as raízes estruturais do problema, vou limitar-me a referir os suspeitos do costume, que já devem conhecer de cor: o capitalismo, o machismo e, como não podia deixar de ser, o racismo. No fundo, até podia dizer só capitalismo, mas isso já são outros quinhentos (a minha família comunista rejubila). Ao que interessa, a pornografia, como tudo o resto, é machista e racista, logo, objetifica mulheres e fetichiza minorias. Até aqui, acho que é fácil de perceber. No entanto, também importa perceber que não é apenas a peça “artística” e as mensagens que veicula que são problemáticas, são também as pessoas que a protagonizam que estão, por vezes, em situações problemáticas. Ou porque não consentiram, ou porque estão em situação de exploração, ou porque ganham menos dinheiro por causa do seu género ou cor de pele. Reparem, eu sou pró-trabalho sexual. Para mim, trabalho sexual é trabalho. As pessoas que atuam em filmes pornográficos são trabalhadores sexuais e, como tal, têm direito a desempenhar a sua atividade livre de exploração. É aqui que as coisas se complicam na pornografia mainstream, gratuita, liberalizada para toda a gente. Atentem nesta palavra: liberal. Notem que eu não disse “democrática”, eu não disse “livre”, eu disse liberal – que é o mesmo que dizer capitalismo selvagem.

Quando falamos de pornografia mainstream, falamos de capitalismo selvagem e falamos do PornHub, claro. O PornHub é, indiscutivelmente, o site pornográfico com mais acessos no mundo. Talvez por isso tenha sido recentemente alvo da campanha #traffickinghub que conseguiu arrancar 2 milhões de assinaturas numa petição para o mandar abaixo. Isto, por se ter comprovado em várias ocasiões que o PornHub se estava marimbando se os vídeos que disponibilizava tinham menores e outras vítimas de abuso e exploração sexual. E vocês pensam “Fixe! vou assinar também” e eu digo “Calma, ainda não”. É que a #traffickinghub é uma campanha financiada por um grupo religioso americano (surpresa!) que é contra o trabalho sexual e que, em última análise, é contra todo o tipo de pornografia. Na verdade, o Exodus Cry (o tal grupo) é contra o sexo gay, contra o sexo fora do casamento e, provavelmente, só não é contra o sexo no geral porque depois não podiam continuar a fazer pessoas para integrarem o seu movimento. Provavelmente, até se estão lixando para o PornHub, que continua livre, leve e solto. Eis quando pensamos em conjunto “O mundo está podre”, e está mesmo.

Então qual é a solução? Proibir a pornografia, como muito agradaria ao Exodus Cry e similares? Não. A História já nos ensinou que proibir o consumo do que quer seja vai criar uma economia paralela que, muito provavelmente, será operada por grupos criminosos (basta lembrarmo-nos de como proliferou a Máfia durante a Lei Seca). Na verdade, já há pornografia a circular da Darkweb, nomeadamente pornografia infantil, cujo consumo é proibido em muitos países. Claro que, na minha opinião, nunca deveríamos falar de “pornografia infantil” e sim de exploração e abuso de menores.

Soluções, não é verdade? Não as há perfeitas… Uma vez que não conseguimos mandar abaixo o PornHub, nem acabar com a pornografia mainstream do pé para mão, a solução é regularmos o nosso próprio consumo. Isto significa encararmos com sentido crítico o que consumimos. Implica, fundamentalmente, duas coisas: procurar sites que garantam que as pessoas que neles figuram estão em situação de trabalho efetivo (livre de coação, exploração e violência), e diversificar os conteúdos que visualizamos. Já sei que alguém vai dizer “Mas eu gosto é de rough sex e não há nada de errado com isso!” – e é verdade. Mas se não formos nós a fazer a nossa própria educação estética, não vai ser a pornografia a fazê-lo por nós, muito menos a pornografia mainstream. Mesmo que tenhamos preferências muito específicas (e totalmente válidas), só temos a ganhar em diversificar o nosso repertório erótico, acho eu.

As más notícias são as de que a maioria destes sites de pornografia mais ética são sites pagos o que, neste caso, até são boas notícias, pois é uma das formas de garantir que as pessoas participantes estão a receber um tratamento justo. “Então, mas se o capitalismo é que é o problema, porque temos que pagar pela pornografia?” Porque pagar pela pornografia é das poucas formas que existem de financiar pornografia de autor, mais diversa e representativa da sexualidade das pessoas, e lutar contra os monopólios. É uma ação local, não global, e fomenta outra economia paralela, que, a meu ver, é preferível.

Eventualmente, já aborreci toda a gente com esta conversa (desculpem, acordei política), mas não percam a esperança. Em breve dou-vos alternativas à pornografia mainstream, pagas e não pagas, e esta ensaboadela vai compensar (espero eu).

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