Kids

Pasmem-se: vi o Kids pela primeira vez. Depois de uma noite mal dormida acordei e estive a chafurdar em tudo o que é trivia sobre o filme. Que murro no estômago. Quando o filme acabou achei que nunca mais ia fazer sexo. Claro que depois percebi que o filme não é sobre sexo, apesar de ter sido conotado como pornografia infantil por alguns, é um filme sobre violência, violência sobre mulheres (e não só). Encontro-me num estado de grande perturbação que sei que se vai prolongar até que me encontre zangada. Ai como é difícil não odiar os homens. Sendo que por “homens” não me refiro aos homens propriamente ditos e mais ao sistema que lhes possibilita as violências. Estou a falar do filme e não estou. É óbvio que as personagens masculinas do filme também sofrem as suas violências, nomeadamente as de serem uma juventude abandonada, de um meio pobre, em que ser sociopata é basicamente uma forma de sobrevivência. Mas, mesmo este olhar sobre as coisas, não tira o nó no fundo do meu esófago. O filme tem imensas camadas e vale a pena pensar numa perspetiva intersectional não só nas questões de classe e de género, mas também nas raciais. Há muito para refletir eu estou a fazer um mau trabalho porque ainda estou perturbada. E vocês devem estar a pensar, esta viveu num tupperware e acordou para o Kids 25 anos depois, e é verdade (e se eu vos confessar que também não vi o Trainspotting nem sei…).

Rocky Horror

Rocky Horror Picture Show. Ainda não inventaram melhor filme de Halloween. Para já, é com a Susan Sarandon e ela canta, além disso, é um festival de freakalhice queer do início ao fim. Para quem nunca viu: tentem imaginar que um filme de terror de série B teve uma colisão frontal com uma cassete VHS de soft porn e que da explosão resultou um filme de ficção científica erótico-musical com um toque de Transilvânia kitsch e sexualmente empoderador. Não conseguem, pois não? Só mesmo vendo.

Intersexo

Há uns anos o meu pai voltava do Queer Film Festival Lisboa algo atónito com a noção de “intersexo”. Por breves instantes trocámos de papéis: ele ouviu, eu doutrinei. Conheço de perto a sensação de me deparar com um fenómeno novo que, normalmente, não tem nada de novo, é só novo no meu armazém de conceitos. Nessas alturas sou obrigada à reorganização das verdades que me vão habitando. Às vezes encontro uma verdade que despeja todas as outras, tipo “o género não é binário”, que não mais permite que noções categóricas de masculino-feminino me habitem. Outras vezes, visitam-me outras verdades que eu deixo entrar e passam a coabitar-me numa existência harmoniosa e progressivamente mais complexa. “Intersexo” é uma destas verdades.

O termo intersexo descreve pessoas diversas que nasceram com órgãos sexuais que não encaixam nas definições binárias de sexo, isto é, de feminino e masculino. Neste sentido não é uma identidade género, mas pode ser (fiquem comigo). Quando digo que não é uma identidade de género refiro-me ao facto de reportar a uma variação biológica e não à identidade que a pessoa escolhe para si. Esta já sabemos que tem variação ilimitada – mulher, homem, transgénero, não binário, trans, e por aí fora. Por outro lado, uma pessoa pode ser assignada intersexo à nascença e não adotar uma identidade intersexo, tendo preferência por uma identidade binária ou outra. Se a pessoa se revir como intersexo, então falar de identidade intersexo. Não é por acaso que há um “i” em LGBTQIA+. Portanto, “intersexo” refere-se tanto a uma identidade, como a uma variação da biologia de base cromossómica, hormonal ou fenotípica. Percebam, no entanto, que a biologia é tão verdadeira como qualquer outro construto social. Sim, a biologia é um construto social (não desistam). Em nome da biologia, as pessoas intersexo foram, e ainda são, sujeitas a todo o tipo de atrocidades médicas por forma a ser “corrigidas”. Estas cirurgias são efetuadas sobre bebés e crianças intersexo para que passem a apresentar a genitália do sexo feminino ou masculino, sem que haja qualquer forma de prever que a pessoa em questão vai adotar o género em que a transformaram. Isto é assumir, como já sabemos, que só há duas formas de existir que são legítimas (uma menos legítima que a outra, claro está, mas isso é outra conversa).

A Organização Mundial de Saúde estima que entre 1 a 4% da população mundial seja intersexo. Não são poucas pessoas. É importante que nos familiarizemos com esta e tantas outras formas de diversidade sexual humana e que continuemos a desafiar as nossas noções de género. No espetro da sexualidade tem de haver lugar para todxs (ou todes).

Body wand

A wand é talvez o brinquedo sexual mais revolucionário de todos os tempos. Foi inicialmente comercializado como massajador corporal e conseguiu imiscuir-se nas habitações de donas de casa desesperadas dos anos 60/70 um pouco por todo o mundo, numa espécie de hacking ao patricardo. No fundo, é um vibrador disfarçado de utensílio doméstico. Vendia-se, aliás, por catálogo, como tanta outra parafernália para o lar. Se forem ao site da La Redoute ainda lá anda. Tem uma forma pouco fálica para sextoy e uma cabeça vibratória potentíssima. É de ligar à corrente, apesar de também haver versões a pilhas (menos potentes). Serve apenas para estimulação externa, ok? Alivia a tensão ao nível do clitóris, vulva, trapézio, deltoides, o que quiserem. Afinal, é um massajador. Contudo, por mais que aprecie o contexto histórico deste aparelho, não sou fã, o que sinto ser quase uma desfeita feminista ao dito. É de uma intensidade que me deixa dormente. Pergunto-me se serei a única.

My boyfriend

Estava a ouvir uma entrevista ao Seth Stephens-Davidowitz para um podcast sobre as vicissitudes da cena de dating em Nova Iorque (eu oiço podcasts estranhos, sempre na esperança que falem sobre sexo), o Why Oh Why, quando me deparo com o seguinte facto: há o dobro das entradas no Google referentes a “my boyfriend won’t have sex with me” do que “my girlfriend won’t have sex with me”. O contexto: Seth Stephens-Davidowitz é um prodígio de Big Data, daqueles que andou aí a espalhar sucesso em tudo o que é Universidade Ivy League americana, e que publicou o “Everybody Lies” – um livro em que apresenta resultados sobre termos de pesquisa (do Google ao Pornhub). Há um manancial de informação com o potencial de me interessar neste livro (que não li), mas vamos focar-nos no facto que referi acima (em vez de atentarmos ao facto de a pesquisa mais frequente a seguir a “my partner won’t have sex with me” ser “my partner won’t text me back”). O cientista de Big Data também nos conta que as pesquisas no Google sobre questões sexuais ultrapassam em muito as pesquisas sobre questões relacionais. Ele queria, inclusivamente, intitular o seu livro de “How big is my penis?”, mas os editores não deixaram. Ao que interessa, gostava de saber porque parece haver mais preocupação em torno dos namorados que não querem fazer sexo do que das namoradas que não querem fazer sexo. Ideias?

Satisfyer. One night stand

Venho por este meio apresentar a minha revisão do produto acima descrito. Bem sei que uma criadora de conteúdos, como se chama agora, não iniciaria uma exposição deste género de modo tão formal, mas, como estou por mim, não deve fazer diferença.

Como ninguém me oferece brinquedos sexuais (tirando @carmogepereira, mas isso é só porque somos amigxs), eu reflito profundamente antes de qualquer aquisição. Com a febre que anda aí com os Satisfyers achei que como gestora de uma conta que pretende promover o prazer sexual livre de culpa e estigma, era minha obrigação ir avaliar o mercado. Ora, o mercado está cheio massajadores/sugadores clitorianos, mas aqueles que gostaria mesmo de adquirir são muito caros (tipo, o Lelo Sona Pink, We Vibe Melt, Womanizer 2Go, etc.). Portanto, antes de fazer uma compra de três dígitos, optei por experimentar o One Night Stand, um Satisfyer descartável. Eu sei, não é muito sustentável, mas também não é muito sustentável para mim gastar 150€ num sextoy e não lhe dar uso. O princípio é simples: sucção clitoriana. A diferença para os outros satisfyers é que só tem uma duração máxima de 90 minutos (acreditem, eu dei tudo à procura de um qualquer local para inserir pilhas novas, sem sucesso). Isto não significa que assim que o ligam tenham obrigatoriamente que estar ali 90 minutos a multiplicar orgasmos… Podem racionar o prazer, basta desligarem o bicho e voltarem a ele quando vos aprouver. Eventualmente compro um dos a sério, mas resolvi falar-vos um pouco desta versão caso queiram animar um clitóris que vos seja querido a baixo custo. É altamente eficaz, btw.

Cisgénero

Lembro-me exatamente onde estava quando googlei a palavra “cisgénero” pela primeira vez. Estava a subir as escadas rolantes do metro da Baixa-Chiado, aquelas que parecem infinitas, no sentido da estátua do Fernando Pessoa. Não sei há quanto tempo foi, mas sei que me demorou menos a perceber do que o tempo de chegar à superfície (até porque, provavelmente, um ou vários lances não estariam em funcionamento). O que talvez não seja tão inteligível em unidades temporais do metro de Lisboa são as implicações. Já teria ligação à sexologia nessa altura e como conhecia bem o conceito de “transgénero” não me foi difícil interiorizar este.

Ser cisgénero ou, coloquialmente, “cis” não é mais do que ter uma identidade de género idêntica àquela que nos foi atribuída à nascença, por oposição a ser transgénero/pessoa trans. Reparem, escrevi “identidade atribuída à nascença” e não “sexo biológico”. Contra tudo aquilo que ensinam na nossa deseducação sexual, apresentar exteriormente uma vulva ou um pénis não diz absolutamente nada sobre a nossa identidade de género. Muitas vezes nem sequer reflete a nossa biologia interna (mas esta questão deixo para outro dia). O que acontece é que quando nascemos alguém olha para nós e faz um raciocínio muito básico: “vulva-menina” ou “pénis-menino”. Mas, por esta ordem de ideias, até nos podiam chamar somente “vulvas” ou “pénis”. Se formos a ver bem até daria conversas de maternidade muito mais interessantes. Imaginem a vossa avó quando vos conheceu ter dito antes “ai que rica vulva me saíste” ou “que lindo, o pénis da avó”. 

Enfim, disparates à parte, o que quero que retenham é que ter, aparentemente, vulva ou pénis não diz absolutamente nada sobre o que somos. Mas que com a compreensão de que somos cisgénero, vem responsabilidade. Vem, sobretudo, noção de privilégio. Ao sentirmos ser aquilo que nos disseram que eramos ao nascer, foi-nos concedida uma espécie de paz identitária, que as pessoas transgénero só possuem a muito custo e nunca sem sofrerem opressões e violências várias. Mortes, muitas vezes. Ao sermos cisgénero foi-nos dado, principalmente, o privilégio da segurança. A palavra cisgénero não serve para encabeçar marchas de orgulho nem merece nenhum movimento próprio, serve apenas para refletirmos sobre privilégio. É isto.