Archives for category: Adolescere

bush-01

Eu andava a evitar mais um post destes. Já está na altura de voltar ao meu registo original, em que discorro disparatadamente sobre um tema sexual puro e duro. A verdade é que fui brindada com um daqueles fins de semana em que até tinha planeado ir aos meus pais e tal mas enrodilhei-me nas finas teias da socialização fraterna e fui antes presenteada com memórias avassaladoras.

Há um momento importante na vida em que uma pessoa adere à depilação brasileira. Esta ocasião, também designada por “Fui à Elsa e voltei com um hitler”, tem patente uma mutação sem retorno no styling púbico, que não mais volta à forma clássica ou tão pouco permite um revivalismo de inspiração vintage. Até que uma pessoa pensa, “Se é para ser assim mais vale ir tudo”. Errado. É que antes de aparecer uma Clínica do Pêlo (não usam o novo acordo), em todo o bairro respeitável a cera assumia-se como o único método comprovado de dolorosa eficácia. Já a efetividade não é uma caraterística que pudéssemos acrescentar à lista de especificações. É que a adoção provisória de um bigodinho implica o surgimento do seu negativo cerca de uma a duas semanas após a ponderada decisão de ir total. Não sei se estão a perceber o que estou a dizer… Não nasce tudo ao mesmo tempo!!! E emerge um hitler invertido. Como se não fosse suficientemente desagradável sentir um símbolo do nacional-socialismo a proliferar numa zona tão íntima podia dar-se o caso de ter que ostentar tal marca. “Errr eu, não costumava ser assim, foi a esteticista”. E assim se adere à estética vulvar de influência porno.

É um bocado fazer o papel de amiga estoica e ir à farmácia do bairro ao lado comprar a pílula do dia seguinte para outrem – podemos negar culpabilidade, mas ninguém vai acreditar em nós. Adolescência, em ti bebo frequentemente inspiração.

Para a semana trarei notícias incríveis acerca de ereções matinais… Wait for it… Em ambos os sexos! É verdade é.

stupid_cupid-02

Ó diacho, o que vou eu escrever sobre o dia dos namorados, esse feriado esquisito? Mas, quer dizer, se os ateus comemoram o Natal apesar de não acreditarem em Deus, os comunistas também apesar de não crerem no consumo, e até mesmo mães feministas abraçam a causa com estufados, gratinados e sobremesas – se todos estes rabugentos sobrevivem ao Natal -, também eu me aguentarei à bronca no dia dos namorados. (Vou só estrebuchar um bocadinho).

O que há a dizer acerca dessa conceção romântica cuja data estipulada é perfeitamente arbitrária? É que no Brasil este feriado é comemorado a 12 de Junho. O que me lembra uma história engraçada, de uns amigos que casaram nesse dia,-uma portuguesa e um brasileiro que conseguiram a proeza requintada de unir os laços do matrimónio nas noivas de Santo António e no São Valentim brasileiro – por mero acaso (dizem eles). É tão inacreditavelmente piroso que dá a volta. Como um tipo que conheço, filho de gente de esquerda à séria ali do Príncipe Real, que por nascer dia 25 de Dezembro ficou Salvador, numa espécie de anedota anticristo.

Mas era para falar do dia dos namorados, não era? Lembrar-me-ei para sempre do correio sentimental cuja distribuição era da responsabilidade da AE da secundária. Aquilo era tão divertido para mim que num ano até me voluntariei para pôr o processo em marcha – e olhem que eu sempre fui mais do género voluntária à força, daquelas que acabava por pagar do meu próprio bolso os jornais da escola que me incumbiam de vender, só para não passar pela infelicidade de impingi-los aos vizinhos. Mas adorava aquele marco do correio. Lembro-me que tinha eu aí 16 anos e fiquei muito doente no dia 14 de Fevereiro. Perdi a distribuição, mas a Rita leu-me uma carta muito bonita por telefone. O seu autor pintava-me, poeticamente, a correr nua pela praia (e isto foi antes dos Toranja). Já o meu cenário mental foi bastante menos idílico, só de pensar no espetáculo de carnes a abanar.

Na verdade a parte mais divertida do dia dos namorados sempre foi o “jantar de encalhados”. Claro que também não é uma má desculpa para passar tempo de qualidade com a outra metade. Já impor-lhe o caráter de comemoração obrigatória e, sobretudo, inundar as redes sociais de clichês floridos, é criminoso (e meio caminho andado para eu optar por “ocultar do feed”, o que não é muito simpático mas um mal necessário). Também agradecia que cabeleireiros chiques parassem de me tentar oferecer descontos de 10% em packs de manicure, pedicure, depilação, madeixas, etc., etc. É que o dia dos namorados não implica um extreme makeover (sobretudo se o desconto for de 10%). Vou só ali ao Lux, ver os PAUS.

preliminares-03

 

O céu brilha lá fora, estou quase a acabar a Pós-Graduação e até fui à SicMulher com o blogue, vejam bem! Nada como algum reconhecimento mediático para me elevar o humor e inspirar posts cheios de boa disposição. A não ser, claro, que tenha andado semidespida pelos corredores televisivos e acabado com uma bruta constipação. Esta é a triste verdade: toda eu sou ranho e acumulei leituras de quilos de fotocópias para o meu exame final. Portanto, da próxima vez que alguém me sugerir falsamente que faz um calorão em estúdio, ou que um vestido preto fica sempre bem, vou simplesmente adotar uma gola alta, um come back, aliás, já preconizado pelos Lonely Island em 2011. Bom humor onde andas tu?

Enquanto contemplava o rasto de lenços de papel que deixo atrás de mim ao estilo Hansel & Gretel (não vá eu esquecer-me do caminho até ao próximo pacote de lenços) lembrei-me daquela cena romântica do Titanic em que a Rose embate veementemente com uma palma suada na janela do carro em que o Jake se encontrava a levá-la à loucura. E pensei: ali tão perto de um monstro de gelo e a brincarem nus! Constipação pela certa, mas um destino muito menos cruel. E… Cá está ele! O meu bom humor voltou. Nada como percorrer uma checklist de tragédias para fazer o que tem que ser feito. No caso: uma review das ocorrências que misturam atividade sexual e condução de veículos.

1) Lá na minha terra de origem, além do hardcore também temos uma panóplia de miradouros improvisados que fazem as delícias dos adolescentes fumadores de substâncias ilícitas. Locais estes que são também a predileção dos jovens hormonais que dão os primeiros passos para a consumação. Um conselho: não acenem em sinal de reconhecimento se encontrarem uma cara familiar. É possível que logo de seguida surja uma face enrubescida vinda diretamente da braguilha desse alguém e desconfio que ambos apreciarão que a atividade decorra sem incidentes voyeuristas. Já eu só frequentei estes locais para apreciar o Tejo.

2) O felácio em andamento ou uma mão malandra a percorrer o lugar do morto são também um hit;

3) Para quem quer fugir aos miradouros sobrepopulados há sempre uns quantos parques de estacionamento aparentemente apetecíveis. Pode é dar-se o espanto que a dada altura, provavelmente após a remoção das roupagens e consequente distribuição de saliva por uma área corporal abrangente, se aperceberem que alguém lhes está apontar um laser! Um laser! “Quem são os engraçadinhos a brincar aos lasers?” “Nem sabia que ainda se faziam lasers” “Vendem no chinês de certeza”. “E se for um sniper?!” “Não porra!! São as câmaras de segurança do ginásio!” E é a debandada.

4) Sofrer questionamento policial em que os machos trocam olhares cúmplices e avaliam a presa é também, infelizmente, um clássico. “Aqui estacionados tivemos que vir averiguar”. Yeah right.

5) Dizem que o twingo é o melhor carro para o efeito. Eu cá sempre desconfiei desse carro, que parece que vem com uns olhinhos ou que a qualquer momento vai emitir vocábulos como aqueles dos filmes antigos de domingo. Mas, para alguns, é um carro tão tão satisfatório que conheço uma moça que comprou um banco de twingo num ferro-velho porque desenvolveu uma estratégia algo rígida de obter orgasmos cuja condição indispensável era decorrer naquele banco específico. Pelo que o levou para casa.

6) E primeiro prémio vai para… Aquele casal que foi parar ao meio do rio porque o carro estava destravado. “Não sei pai, não consigo mesmo perceber como aconteceu!”

Espero que tenham apreciado esta viagem pelas adolescências.

precoce-01

Este tema sopesa-me há uns tempos. Por que raio é que há homens que se preocupam obsessivamente com isto? É claro que eu sei a resposta à pergunta – há ansiedade de desempenho e monitorização excessiva que, associadas a experiências “desastrosas”, vão alimentando esta disfunção chata. É chata porque normalmente não é um problema orgânico, apesar de melhorar um pouco com alguma medicação (antidepressivos, vejam bem!), tem mesmo a ver com insegurança.

Mas querem saber a verdade? Não é nenhuma anormalidade ter uma ejaculação mais rápida de vez em quando. Entre adolescentes e jovens, normalíssimo, e, mesmo entre adultos pode aparecer sem aviso prévio. A psyche é tramada. Claro que com o envelhecimento as ejaculações tendem a retardar… O que é positivo para os mais rápidos e um pouco aborrecido para os outros. Contudo, podem sempre adequar as práticas sexuais. A satisfação sexual é um jogo contínuo de adaptação ao outro, às suas diferenças fisiológicas e anatómicas, às suas preferências e apetites, e, muito frequentemente, às alterações destas ao longo do tempo! “Adaptação” no sentido em que temos que gerir o repertório do outro, sem comprometer o nosso, mantendo sempre presente a noção de que neste jogo fazemos parte da mesma equipa.

Lembro-me de um tipo que a certa altura ejaculava sempre que lhe era verbalizado “Amo-te” durante o ato. É de salientar que isto não acontecia antes – salvo talvez no primeiro contacto sexual -, mas passou a acontecer, até voltar a extinguir-se (porque nunca foi uma grande preocupação para nenhum dos envolvidos). A verdade é que não vale a pena ficarem muito chateados por ejacularem depressa demais. Tenho tentado defender uma tese que implica que O SEXO NÃO ACABA QUANDO ELE SE VEM! A penetração nem sequer tem que ser o objetivo… Para muitas pessoas essa nem é a forma mais satisfatória de viver a sexualidade. Portanto, se ejaculam “depressa demais”, divirtam-se a fazer outras coisas. Esta genitalização do prazer dá-me cabo dos nervos.

Além de tudo isto, arrisco dizer que conheço poucos (ou nenhuns) homens ou rapazes que não tenham ejaculado depressa (ou até perdido a ereção) na ânsia de uma relação sexual muito desejada. Então se há afetos importantes envolvidos, esqueçam, é certinho. E querem saber uma coisa? Eu acho uma fofura. Penso sempre “devo ser mega gatinha para isto ter acontecido”. Case closed.

Esta página sobre ejaculação prematura é bastante boa (apesar de completamente heteronormativa, sorry). Cruzei-me com ela porque vi um anúncio quando estava a tentar pesquisar sobre futebolistas gay no Record ou na Bola. Não encontrei nada sobre o assunto, facto que me fez refletir em Se o Cristiano Ronaldo Fosse Gay?, portanto assumo esta improbabilidade estatística com humildade, mas ampliei o meu conhecimento ao nível de sites jeitosos sobre disfunções sexuais masculinas. Anúncios sobre medicamentos para as disfunções sexuais em sites de bola. Go heteronormatividade.

pad_vida_dois-01

 

Ele mora em Telheiras Norte?! Isso é longe. Porque é que não vão morar juntos? Sempre poupavam uns trocos. Foi por isso que eu fui viver com a R*****. Além de que faz companhia. Deita é cabelos”. Amigos sábios ❤

Intimidade. Considerações específicas: O sexo e seus desaires.

Já se ultrapassaram questões complexas como o mau hálito matinal, os flatos noturnos e até mesmo a utilização repartida da casa de banho que, como sabem, inclui confronto com munhanhos de cabelo (ou pelo) de outrem, hábitos de higiene ao nível da manutenção da manicure (“Eu corto diretamente para a sanita”, “Eu faço um molhinho”, “Eu cá roo”) e, claro, com os aromas naturais provenientes na tubagem gastrointestinal e das tradições alimentares de cada um. Espargos dão xixi com cheiro esquisito, café acelera o metabolismo e provoca engarrafamentos sanitários, e o chili nem preciso de descrever em que resulta.

Falta agora encarar a sexualidade real. Aquela cuja frequência deixa de incidir em 100% dos encontros (mal seria) e que é mais compatível com o estilo de vida corriqueiro. Aquela que já não despoleta verbalizações do género “Uau! Tu és sempre assim?!” e aquela em que as práticas orais às oito da manhã são já limitadas a ocasiões especiais. Especialíssimas. Já que as imposições laborais voltam a importar e a apresentação de uma autoimagem de hipersexualidade deixa de preocupar. Esta adequação de expetativas ocorre naturalmente e é concomitante com o desenvolvimento de outros hábitos.

Passa a dormir-se de pijama, o que é um alívio. Time out para o grupo Calzedonia e Thumbs up para a Inditex e Cortefiel, que investem numa panóplia diversa de trajes noturnos. Bem sei que dormir nu ativa a produção de não sei o quê – não vou atestar a veracidade da informação –, que é muito positivo para a sensualidade e até melhora a qualidade do sono. Muito bonito, sobretudo se for numa sesta encalorada de Verão, mas a perspetiva de sentir penugem do meio das costas a mover-se ao ritmo da expiração alheia é o suficiente para me pôr já com insónias. É que o quarto é virado a norte, como sabem.

Fazer sexo evolui para fazer amor, o que é um desgosto para a mulher do Mário Alberto (esta é velha, eu sei). Passa inclusivamente a ser ofensivo designar o ato de forma a não explicitar uma jura eterna. Pelo menos é o que a sociedade espera de nós, apesar de não ser infrequente ouvir a alguns “Fazer amor? Nunca percebi muito bem o que querem dizer com isso” – o que pode indicar que esta dicotomia sexo/amor não satisfaz. Bom, que cada um faça o que lhe aprouver!

E partilham e curam-se doenças lado a lado, inclusivamente as genitais. O recurso ao Gino-Canestan (cujo prefixo leva a pensar erradamente que a aplicação tópica se processa somente em vaginas), esse ato carregado de lascívia, é elevado a conversa de cabeceira, como se a convivência de estados gripais não fosse já suficientemente desaprazível.

Voltaremos ao relato minucioso da intimidade amorosa e sexual.

Link para Maravilhas da vida a dois I

papel-01

Intimidade. Considerações gerais.

Os níveis de intimidade evoluem. Inicialmente o simples facto ruidoso do embate da urina nas paredes de loiça sanitária parece uma catástrofe que tentamos evitar soterrando a mesma de papel higiénico, experimentando danças desequilibradas em busca daquele local específico em que cada sanita permite escorrimento ao invés de soar em jato, ou procurando separar o xixi em vários xixizes sumidos e muito pouco satisfatórios. Felizmente isto passa. Por favor, toda a gente precisa de esvaziar a bexiga. Mas, em todo o caso, eu cá por mim bania as suites.

Depois do primeiro xixi vem o primeiro acordar, se é que dormiram efetivamente. Para pessoas como eu, com necessidades muito especiais ao nível da luminosidade, temperatura e lado da cama, no máximo percorreram hiperativamente sonhos desconexos em que a consciência corporal de se encontrarem numa cama estranha, com uma pessoa díspar, nunca vos abandonou. Depois “acordam” e se forem do estilo amoroso dão beijinhos. Beijinhos! Nesse momento já anteviram a situação e expulsaram hálito matinal de encontro às palmas das mãos para constatar o triste facto que não emanam vapor de água fofo e sim o resultado de um ecossistema pestilento que marinou durante toda a noite. Se foram céleres o suficiente provavelmente conseguiram escapulir-se para esfregar pasta de dentes do parceiro/a e bochechar, fingindo que aquele forte gosto mentolado é a vossa fragrância natural. Talvez até o tenham feito ambos, prevendo práticas matinais, dando início à beijaria como se não reparassem na bizarria que é ter a boca fresca debaixo de lençóis às 8h da manhã.

Mas as desatenções multiplicam-se, como aquele primeiro pum que vos traz das profundezas da sonolência para a realidade crua do silêncio ensurdecedor que é o de tentar averiguar se todos os envolvidos despertaram ou se apenas o emissor de gás. Qualquer alteração respiratória conta. A tensão instala-se, esperam-se movimentos delatores de reconhecimento da emissão cheirosa e o cérebro grita um quase audível “Merrrrrrrrrda! Porquê?” (já lá vamos também). Se tudo correr bem os implicados fingirão não dar pela ocorrência e, brevemente, aperceber-se-ão da diversidade de vocabulário existente à disposição para designar a flatulência humana – pum, peido, bufinha ou outro qualquer nome queriduxo –, adotando uma expressão que aprouver a ambos ou continuando a ignorar incidentes semelhantes.

E há um nível acima, o derradeiro. Cocó. Não há como negar que este é um aspeto importante da vida a dois. Da vida de qualquer um, aliás, mas, por razões diversas, até se dar o seu reconhecimento como atividade mundana o casal passa por um processo de dessensibilização sistemática (em que são efetuadas aproximações sucessivas ao ato de evacuar até este ser finalmente aceite). O processo pode ser muito célere ou muito moroso. Alguns, mais despreocupados, conferirão ao ato de defecar exatamente o estatuto de banalidade que merece – “that’s life”, pensam. Outros comportar-se-ão como se fosse um ato sagrado que deve desenvolver-se em total privacidade e com desconhecimento do parceiro, sobretudo quando se trata de uma mulher – toda a gente sabe que as mulheres não fazem cocó. Conheço também um caso que foi lá pela terapia de choque que foi mais ou menos assim: “Quê, vais cagar?! Olha aí que estou a tomar banho!” / “Por isso mesmo, assim não vais a lado e vais-te já habituando”.

Voltarei às maravilhas da vida a dois em breve.

Fiquem bem.

cana18_2

Aos 8 anos perguntei à minha mãe como se faziam os bebés. Nesse momento o meu pai passava pelo corredor e continuou a sua viagem, falsificando um olhar distraído. Não me lembro, mas devo ter deixado a minha mãe numa sucessão de vocalizações onomatopaicas do género “Hum, Err, Pois, Hum”. Nessa altura os meus pais resolveram comprar-me um livro, a “Educação Sexual dos 8-9”. Lá o li, porque tinha um trabalho sobre o assunto para entregar na escola, mas acho que a certa altura voltei a questionar a minha mãe “Afinal como é que é?!” Já o meu irmão nunca colocou os nossos pais em tamanha aflição. Sempre foi um rapaz esperto.

Ainda me lembro da textura escorregadia do latex enquanto um líquido aguadilhado mas unguinoso se espalhava nos meus dedos numa sensação simultaneamente quente e fria. E daquele cheiro, que parecia ficar connosco entre lavagens. Tinha 11 anos. Não sei como seria nas outras escolas mas eu orgulho-me de ter tido educação sexual uma vez por ano desde então. Era muito giro. Falávamos do período, aprendíamos a colocar preservativos e até podíamos fazer perguntas à Sr.ª Enfermeira que vinha de propósito do Centro de Saúde de Carnaxide. No momento em que me aparecesse uma pila sabia que tinha de lhe enfiar aquela espécie de balão de água untoso, apertando a pontinha e desenrolando devagarinho e nunca, NUNCA, rasgar o invólucro com os dentes, sob pena de ter girinos a fazer-me bebés. Também me lembro do insight tardio, da média adolescência, acerca do sabor a morango ou a chocolate daqueles preservativos que esbanjavam as Juventudes Partidárias nas listas das AEs no período de eleições. Estou a brincar, não nos davam preservativos de sabores, apesar de no outro dia ter encontrado um desses presidentes da secundária perto do Parlamento. Deve ser deputado. Se as ofertas soubessem a baunilha já era de Presidente da Câmara para cima, de certeza.

Voltando à minha aula sexualmente educativa anual. Não proporcionou conhecimentos ao nível da resposta sexual ou tão pouco das práticas possíveis (felizmente havia o Canal 18), por se tratar de matéria de “educação sexual e reprodutiva”, sendo que claramente se olvidaram da primeira parte. Pronto, pronto, é verdade que me ensinaram da SIDA. Portanto aprendi sobre a menstruação, o preservativo e sobre o vírus HIV. Podia ter sido pior mas também podia ter sido educação sexual.

Os filmes foram importantes. A primeira vez que visualizei um estava sozinha em casa de uma amiga. Ainda estava na escola primária. Ela desencantou um filme do pai e quis mostrar-me. Lembro-me muito bem de me perguntar “quando vês um filme e as pessoas se estão a beijar ou a despir não sentes o pipi apertadinho ou uma espécie cócegas?” “sinto, sim”, teria respondido hoje. Recordo-me de tão pouco desses tempos mas lembro-me disto como se fosse ontem. E do entusiasmo do Canal 18. Era frequentemente o tema de conversa matinal entre os rapazes. Já eu, rapariga, tinha uma desautorização tácita de me reportar a estas coisas nojentas dos rapazes. Mas lembro-me de ver uma senhora a fazer xixi enquanto alguém lhe enfiava as mãos. Achei muito estranho, mas não fiz perguntas.

Não tenho dúvidas que foi com os meus amigos rapazes que aprendi mais acerca de sexo e de afetos na adolescência. Nas colónias de férias, em que os monitores também uniam esforços como educadores sexuais, ou nos fins de semana que passávamos em casa uns dos outros. Obrigada por me contarem das vossas paixões, fantasias e punhetas, sem elas a minha identidade sexualizada seria certamente outra coisa qualquer. Tenho pena de só vos ter contado dos meus amores platónicos. Talvez os nossos filhos façam diferente ou talvez as filhas continuem somente a escutar com muitos ouvidos (ainda não percebi bem para onde vamos).

Tenho que agradecer aos meus pais, que nunca fizeram distinção entre as minhas dormidas em casa de rapazes ou raparigas. E lembro-me tão bem dos medos dos outros pais… Pénis, sexo, gravidez, “dormir com rapazes nem pensar”. Posso nunca ter falado acerca de sexo abertamente com os meus mas suponho que o facto de permitirem que passasse férias com seres demoníacos cheios de esperma transmitiu-me a noção implícita que a intimidade e sexo não são coisas monstruosas. Nunca dei sequer beijinhos aos meus amigos, limitei-me a conversar pela noite dentro e adormecer perto deles. E quando o primeiro namorado dormiu lá em casa, aos 21, nem se pôs a hipótese de dormirmos em quartos separados. Quão hipócrita e anedótico seria? Suponho que educar, a certa altura, seja isso mesmo, autonomizar em segurança: fazer figas, fechar os olhos e esperar que corra tudo bem.

Podia também falar dos principais responsáveis pela minha deseducação sexual e do lixo que impõem às rapariguinhas, as Super Pop, Ragazzas e, mais tarde, a porcaria da Cosmopolitan – ou não. Outro post.

Até sempre.

punhetas-01

Quem nunca ouviu falar da história da bolacha? Aquela em que cada criaturinha borbulhante de testosterona batia uma punheta para cima de uma bolacha Maria e aquele que não se viesse comê-la-ia por fim. Uma daquelas atividades praticadas em roda com topping de bullying. Sou muito gráfica, eu sei, apesar de não estar certa de me encontrar a efetuar um relato fiel deste episódio mitológico. Mesmo que a bolacha seja uma mera figura arquetípica da adolescência masculina implicava bater punhetas em conjunto, disso tenho a certeza. E é aí mesmo que quero chegar. Enquanto eles participaram em orgias masturbatórias orientadas para o desempenho, a elas impingiram-lhes o sonho do amor e da afetividade pelo qual deviam aguardar passivamente. Não pensem que vou iniciar um dos meus habituais discursos feministas. Neste caso, devo dizer, não consigo decidir quais das expetativas sociais são mais danosas para a saúde mental e sexual – se as de performance, se as da ilegitimidade masturbatória.

Comecemos pelos rapazes. “Já sai água!”, confidencia alguém após o ato desesperado de espremer a pilinha até ela confessar uma irritada vermelhidão pré-púbere. Tudo isto porque ouviram contar a um miúdo amadurecido que já tinha sonhos molhados e agora já batia umas a sério. E assim se principia o ciclo de partilha masculina dos conseguimentos sexuais (a palavra conseguimento ainda é mais fixe quando prefixada com “in”). A partilha dá-se em ambiente de balneário ou até na sala de aula. Não há qualquer motivo para sentir vergonha. Ao contrário, ostenta-se cada aquisição desenvolvimental como um grito que soa a “Já sou capaz (e tu não)”, e a roda continua a girar, acumulando feitos e patifarias sexuais, culminando não infrequentemente nas minhas conhecidas “Disfunção Erétil” e “Ejaculação Prematura” (eu trabalho em saúde sexual). É que quando uma pessoa começa a sentir pressão para o desempenho sexual ainda antes da possibilidade física da sua fruição temos já um ingrediente indispensável à disfunção.

as adolescentes falam de príncipes encantados, amores platónicos e, a certa altura, de curtes (ainda se usa a expressão?) e de namoros. Falam pouco sobre sexo e ainda menos sobre masturbação. Apesar da “Cosmopolitan” disparar subtítulos como “5 Técnicas para se masturbar no chuveiro! Pensa que é a única mulher que se masturba?”, declarando a normatividade da coisa (enquanto nos agrilhoa a ideais de beleza inalcançáveis), todas sabem que é uma coisa demasiado feia para ser conversada. O desenvolvimento sexual feminino é fundamentalmente passivo. Quando lhes acontece serem tocadas e apalpadas são impelidas a abordar o assunto. “E o que fizeste? Deixaste?” “Ao início não, mas fui deixando aos pouquinhos…”. Ai de quem ouse tomar as rédeas da sexualidade ou não mais verá o seu nome gravado nas mesas estudantis sem o apêndice “puta” ou “saca-bicos”. Ao lado do “Joana loves Pedro” e do clássico “Se carregares neste botão a tua professora desaparecerá”. E nem mesmo a Raquel Saca-bicos vai assumir que tem orgasmos aos 14 anos. Sozinha. Porque pior que fazer coisas aos rapazes é ser parte ativa no próprio prazer. Masturbação, essa coisa suja. Talvez seja por isso que as adolescentes passam tanto tempo no banho (e não porque deixam máscaras capilares a atuar). A EPAL fica a ganhar. Os problemas sexuais também.

Quanto à bolacha, se alguém a comeu, permanece um segredo tão bem guardado para mim como o facto dos tipos da EMEL conseguirem dormir de noite. (Achei que podia juntar bullies e psicopatas na mesma frase).

The end.

“Batendo Punhetas” é o nome do 2º capítulo do delicioso “O complexo de Portnoy” de Philip Roth. Deixou-me cheia de vontade de escrever sobre a adolescência… Deixo-vos um excerto:

Veio depois a adolescência – metade da minha vida desperta trancado na casa-de-banho, disparando os meus cartuchos para dentro da sanita, ou para cima das roupas do cesto da roupa suja, ou splat, contra o espelho do armário dos medicamentos, diante do qual me postara, arriando as calças, para ver o aspeto da coisa a jorrar cá para fora. Ou então estou curvado sobre o meu punho em movimento, olhos cerrados mas boca bem aberta, para receber na língua e nos dentes o molho viscoso de soro de leite e Clorox – embora não fosse raro, na minha cegueira e no meu êxtase, apanhar com tudo na poupa, como um jorro de Wildroot Cream Oil. E assim vivia num mundo de lenços de pano e papel amarrotados, de pijamas manchados, com o meu pénis vermelho e inchado, no perpétuo pavor de que a minha abjeção fosse descoberta por alguém que me apanhasse no frenesim de alijar a minha carga. Mas mesmo assim era absolutamente incapaz de manter por muito tempo as mãos longe do pirilau quando este começava a trepar-me pela barriga acima”. p.23