Porno indie

Pornografia indie ou pornografia ética, feminista, ou fair trade. Afasta-se do mainstream tanto em termos éticos, como estéticos. Claro que, por vezes, há fenómenos indie que tomam proporções descomunais e ganham o seu próprio espaço na cultura pop, como os Radiohead. A Erika Lust é uma espécie de Radiohead da pornografia. É, de longe, a cineasta mais famosa de filmes para adultxs independentes. Não enche arenas, mas tem fãs um pouco por todo o lado. O seu projeto mais popular é o XConfessions, em que grava as fantasias confessadas de quem se atrever a com ela partilhá-las. Podem fazê-lo no seu site e talvez um dia vejam a vossa fantasia transformada em porno! Além disso, Erika Lust também tem a curadoria do Lust Cinema, disponível em Chrome Cast e Apple TV, e do Else Cinema, uma versão que mais soft, sedutora e apaixonada. A Pink Label TV é outro site em que podem encontrar uma vasta coleção de pornografia indie. Ao contrário dos anteriores, este permite a visualização gratuita de muitos filmes.

Ainda dentro do indie queria fazer menção a dois projetos: o Four Chambers e o Fuck for Forest. O primeiro produz filmes que exploram a sexualidade entrelaçada com a “tecnologia, simbolismo, mitologia e alquimia” – nas palavras da autora, Vex Ashley, uma performer de Erika Lust. Portanto, se se sentem místicxs, o Four Chambers é para vocês! Fuck For Forest é uma organização ecológica, não um site de pornografia comercial, cujas doações servem a preservação de florestas tropicais. Troca-se pornografia por árvores, basicamente (dizem elxs – eu não tenho forma de verificar).

A ganhar grande popularidade há ainda o site Bellesa, dirigido por mulheres, que se autointitula “A Netflix da pornografia”. Na mesma onda têm o Sssh e o FrolicMe e, se tiverem um fraquinho por pornografia amadora, procurem o Make Love Not Porn, apesar de a sua criadora, Cindy Gallop, preferir chamar-lhe “real world sex”.

Fica a faltar-me pornografia indie gay, mas já ando na batalha. Espero que usufruam das minhas pesquisas tanto como eu 😊

Abaixo um still do XConfessions Vol. 1, Erika Lust.

Audio porn

Recebi as vossas sugestões, fiz as minhas navegações e agora volto até vós com as minhas conclusões. As vantagens da pornografia áudio são várias, sendo que a mais importante, do ponto de vista ético, é garantir o anonimato dxs interlocutorxs. Não é que não possam ser partilhados áudios sexuais de pessoas que não deram o seu consentimento, mas, considerando que não têm suporte visual, a magnitude do impacto em termos públicos é bastante inferior (o que desencoraja quem faria esse tipo de partilha #naopartilhes).

Além de maiores garantias éticas, também proporcionam estímulo verbal – o que pode ser interessante para quem quer diversificar do visual ou, simplesmente, tem apreço pela sensualidade das palavras, como eu.

Sem mais delongas:

Há várias aplicações que disponibilizam algum conteúdo gratuito. Várias pessoas referiram a Dipsea, mas também há a Ferly (ambas com conteúdos para vários géneros), a Emjoy e a Femtasy (estas últimas com conteúdos mais orientados para mulheres e pessoas com vulva). Nestas aplicações encontram histórias eróticas narradas, instruções para masturbação guiada, e muito mais. Eu considero os conteúdos bastante bons para quem gosta do estilo.

Agora, se preferirem ouvir sexo per se, já não podem contar com aplicações simpáticas. Mas há opções! No Tumblr têm o @loveadiogasm, que sobreviveu às novas normas da plataforma, contrariamente à sua irmã @porn4ladies, que eu tanto estimava, onde têm gravações curtas de episódios sexuais diversos. Às vezes até há gravações em português! Há também a Orgasm Sound Library da Bijoux Indiscrets, que é autoexplicativo.

Para quem gosta de kink há o Aural Honey (blog wordpress) e o Girl On The Net.

Para uma experiência bastante diferente têm o podcast de Dixie de La Tour, o Bawdy Storytelling onde atorxs, comediantxs e pessoas do público geral contam as suas histórias sexuais com humor e descontração. Alguns episódios parecem stand up. Aliás, no formato original acho que até eram mesmo eventos itinerantes tipo stand up, em bares.

Por fim, se o que procuram é uma experiência mais próxima da pornografia mainstream, têm os áudios do site Literotica e do Quinn (que é um site tipo YouTube, em qualquer pessoa pode fazer uploads). Estes últimos são os que gosto menos, a começar pelo interface, mas cada um sabe de si!

Vejam lá se não ando trabalhar arduamente para vocês?

Body wand

A wand é talvez o brinquedo sexual mais revolucionário de todos os tempos. Foi inicialmente comercializado como massajador corporal e conseguiu imiscuir-se nas habitações de donas de casa desesperadas dos anos 60/70 um pouco por todo o mundo, numa espécie de hacking ao patricardo. No fundo, é um vibrador disfarçado de utensílio doméstico. Vendia-se, aliás, por catálogo, como tanta outra parafernália para o lar. Se forem ao site da La Redoute ainda lá anda. Tem uma forma pouco fálica para sextoy e uma cabeça vibratória potentíssima. É de ligar à corrente, apesar de também haver versões a pilhas (menos potentes). Serve apenas para estimulação externa, ok? Alivia a tensão ao nível do clitóris, vulva, trapézio, deltoides, o que quiserem. Afinal, é um massajador. Contudo, por mais que aprecie o contexto histórico deste aparelho, não sou fã, o que sinto ser quase uma desfeita feminista ao dito. É de uma intensidade que me deixa dormente. Pergunto-me se serei a única.

Satisfyer. One night stand

Venho por este meio apresentar a minha revisão do produto acima descrito. Bem sei que uma criadora de conteúdos, como se chama agora, não iniciaria uma exposição deste género de modo tão formal, mas, como estou por mim, não deve fazer diferença.

Como ninguém me oferece brinquedos sexuais (tirando @carmogepereira, mas isso é só porque somos amigxs), eu reflito profundamente antes de qualquer aquisição. Com a febre que anda aí com os Satisfyers achei que como gestora de uma conta que pretende promover o prazer sexual livre de culpa e estigma, era minha obrigação ir avaliar o mercado. Ora, o mercado está cheio massajadores/sugadores clitorianos, mas aqueles que gostaria mesmo de adquirir são muito caros (tipo, o Lelo Sona Pink, We Vibe Melt, Womanizer 2Go, etc.). Portanto, antes de fazer uma compra de três dígitos, optei por experimentar o One Night Stand, um Satisfyer descartável. Eu sei, não é muito sustentável, mas também não é muito sustentável para mim gastar 150€ num sextoy e não lhe dar uso. O princípio é simples: sucção clitoriana. A diferença para os outros satisfyers é que só tem uma duração máxima de 90 minutos (acreditem, eu dei tudo à procura de um qualquer local para inserir pilhas novas, sem sucesso). Isto não significa que assim que o ligam tenham obrigatoriamente que estar ali 90 minutos a multiplicar orgasmos… Podem racionar o prazer, basta desligarem o bicho e voltarem a ele quando vos aprouver. Eventualmente compro um dos a sério, mas resolvi falar-vos um pouco desta versão caso queiram animar um clitóris que vos seja querido a baixo custo. É altamente eficaz, btw.

La petite mort

Sabiam que “la petite mort” é uma expressão francesa utilizada para descrever o orgasmo? Se sabiam, parabéns, mas eu aprendi muito recentemente. Esta semana passou na RTP2 um documentário homónimo em que mulheres cisgénero de várias idades e preferências sexuais falam dos seus orgasmos cheias de sinceridade, poesia e humor. Puxem lá isso para trás nas vossas boxes e embarquem nesta curta aventura (são só 25 minutos) de prazer feminino. Podem também seguir a realizadora no instagram em @lapetitemort_doc

Propostas decentes do Masturbation May

Estava nos meus planos compilar todas as propostas decentes do Masturbation May até ao fim do mês (de Maio, diga-se) e inaugurar o Deconfinement June logo de seguida. Sucedeu que num belo sábado de férias em Lagos o meu computador teimou em não ligar. Eu lá forcei aquilo umas quantas vezes e, eventualmente, começou a fazer um “tak tak tak tak” assustador. Aquilo não me estava a parecer nada bem. Era o disco e, obviamente, não tinha backups de nada – sou uma otimista. Tentei não me deixar levar pelo desespero mas a perspetiva de ter perdido anos de ficheiros e grande parte do meu Doutoramento não era propriamente animadora. Então fiz o que sempre faço: liguei ao meu pai. Pobre coitado, está há duas semanas a tentar salvar o que consegue daquele disco que ruge em sofrimento. Doutoramento recuperado, Pronto a Despir também. Cá estou, uma rapariga cheia de sorte. Não trato nada bem os artefactos tecnológicos mas safo-me sempre, é impressionante. Vejam bem que uma vez deixei o computador no metro do Rato e fui dar com ele no Marquês, incólume. No entanto, aprendi a minha lição e penso adquirir um disco externo ou pôr tudo numa cloud, como as pessoas modernas.

Este é, portanto, um post tardio. Ao longo do mês de Maio fui publicando no instagram do @prontoadespir  uma série de propostas decentes . O que são propostas decentes, perguntam vocês? São exatamente o que o nome indica: “propostas” artísticas, literárias, tecnológicas “decentes”, ou seja, com o selo de qualidade do Pronto a Despir (aka Leonor de Oliveira). No caso, meras sugestões inspiradas em atos masturbatórios ou que visam promover os mesmos a quem lhe aprouver. Já mencionei a origem do Masturbation May noutro post, agora deixo-vos as mais decentes propostas:

Deixem-se levar pela indulgência do hedonismo relaxado com “Masturbação guiada”, o segundo episódio do novíssimo podcast @220vulvs, disponível no Spotify. “Respira, inspira e vamos gozar” são as instruções em português do Brasil e a mais perfeita saudação ao fim de semana que aí vem.

Procurem no vosso repertório interior: qual a melhor cena de masturbação em filme dos últimos tempos? Para mim o momento em que Fleabag é apanhada em flagrante delito com um vídeo do Obama é uma delícia hilariante. Não posso deixar de salientar que se trata de um vídeo político… Que eu saiba não há leaks do Obama na intimidade (uma pena). FYI Obama elegeu Fleabag a melhor série de 2019 portando podemos supor que está ok com a ideia de suprir este tipo de necessidades.

Se são amigos da leitura POR FAVOR leiam o Complexo de Portnoy do Philip Roth. Ninguém como ele expressa os desaires culpabilizantes da masturbação de um jovem judeu de 14 anos. Lembro-me de ter ataques de riso no metro ao ler o capítulo “Batendo Punhetas” enquanto me dirigia para o meu estágio em sexologia.

Se preferem podcasts podem ouvir o “Sex on the brain with Amory Jane  – The one where everyone masturbates”. Já tem algum tempomas vale muito a pena. Este grupo de portadorxs de vagina de Portland junta-se para falar da sua relação com o corpo e com a masturbação ao logo da vida. É um momento íntimo, inundado de risos e histórias adolescentes de masturbação com almofadas, pontas de mesas, chuveiros (o meu clássico favorito), com creme hidratante (corre mal, como poderão adivinhar), e muito mais. Este momento de sororidade inegável encaminha-se então para um episódio de masturbação coletiva relatado em voz off por Intern Courtney. Courtney é mais como uma investigadora etnográfica do que uma narradora da BBC; é os nossos olhos e ouvidos deste cenário que só poderia passar-se numa das cidades mais hipster do mundo. Temos ainda direito a uma review live de cada sextoy que utilizam no momento. Vale muito a pena, como já disse.

O verão está a deixar-vos de bom humor?  E que tal umas brincadeiras com fruta da estação? Ninguém o faz melhor que Timothée Chalamet em no filme “Call me By Your Name”

Por fim queria partilhar convosco o incrível site Wheel of Foreplay. É basicamente um jogo tipo roda da sorte que nos vai brindando com sugestões para animar a nossa vida sexual. Tem um segmento chamado I touch myself pejado de sugestões masturbatórias. Eu já girei a minha roda hoje, e vocês? Vão a wheelofforeplay.com e girem até mais não, que autoamor nunca é demais!

Para celebrar a primavera e a natureza

Eu sei que ando calminha mas ando a preparar umas novidades para vocês… Para a semana rumo ao Brasil e à Filipa com quem muito discutirei este blogue – e São Paulo e as praias e os costumes – e voltarei cheia de histórias para contar, prometo. Por agora deixo-vos mais um filme da Nowness, sempre deliciosos. Este é dos Dent De Cuir, um coletivo de realizadores estabelecidos em Montreal. “It is about a girl, a bad one, who’s too sexy for human beings…”

“Dye: She’s Bad” by Dent de Cuir – NOWNESS from NOWNESS on Vimeo.

Ambivanalência

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Venho por este meio revisitar o tema do sexo anal e sentimentos associados. Confidenciou-me a namorada do meu irmão que quando se estreou no blogue foi logo o que lhe calhou, pelo que não voltou a fazer mais nenhuma incursão até esta o voltar a convencer que era seguro. Reparem que eu falo sobre sexo, não necessariamente sobre a minha atividade de campo, mas mesmo assim julgo que vou proceder a um novo trauma ao rebento mais novo. É um novo tipo de bullying fraterno. Já agora desculpa Pedro, por ter permitido que a mãe te castigasse pelas minhas “porcarias” (termo cunhado ao mau uso dos objetos domésticos lá de casa, que é como quem diz escangalhar brinquedos e sujar a alcatifa – estávamos na virada para os anos 90, um momento glorioso para a proliferação dos ácaros). Espero ter compensado quando fingia que não sabia que bebias Baileys às escondidas. Vamos lá:

“Ambivanalência”
Ambiguidade de sentimentos que se prende com o desejo de inserção de um objeto sexual ânus arriba e concomitante avaliação de risco da atividade.

Já fiz uma exposição acerca do assunto em Maio de 2014 e, precisamente, por se tratar de uma questão a que se associam pensamentos e sentimentos simultaneamente positivos e negativos, passo a apresentar ações para a extinção destas contrariedades.

Regra nº 1: caso a ideia de sexo anal cause somente sentimentos de repulsa ou medo não o pratiquem. Ninguém deve fazer nada que não deseje efetivamente. Estes manuais servem somente aqueles com algum nível de ambivanalência. Para aqueles sem afetos positivos para com a atividade resta a comunicação assertiva com @s parceir@s e a fruição do sexo como bem entenderem. Felizmente há muito a explorar.

Manual para principiantes
Há que tratar a analidade com a cortesia proporcionada à virgindade mas aproveitando os conhecimentos adquiridos com a nossa Estória Sexual. E o que retiramos de mais importante? É que não há coito sem vontade. Para os homens isto é fácil de compreender porque a biologia lhes fornece pistas óbvias, nomeadamente a afluência sanguínea tumescente que implode do pénis e parece conferir-lhe estrutura óssea. Já os indícios de frenesi feminino são somente visíveis da primeira fila, apesar de facilmente discerníveis através do tato. Portanto, idealmente, a penetração anal ocorre num momento de grande excitação sexual.
O que fazer se esta prática for desejada mas não necessariamente acompanhada de sintomas de lubrificação em barda, devido ao medo da porcaria, contágio, dor? Três coisas: 1) Podem recorrer a um laxante ou efetuar uma limpeza com um enema, que usa água; 2) Devem utilizar preservativo, uma vez que é uma boa forma de evitar a contaminação por bactérias. Nunca, mesmo nunca, retirem o pénis (ou o que for) do interior de ânus e voltem a colocá-lo em qualquer outro orifício, pois muito facilmente dará direito a infeção. Daí a pertinência do preservativo – caso a tentativa de sexo anal não corra bem retira-se o preservativo e arranja-se moral para desbravar outros territórios. 3) Por último, necessitam de lubrificação – natural, proveniente da saliva ou de um lubrificante de compra. Optem sempre por aqueles de silicone e não à base de água, que tendem a desaparecer.

Manual para iniciados
Entrou? Então sai. Errado. A entrada ânus acima pode ser desconfortável ou dolorosa mas a sua saída é mil vezes pior. É um momento twilight zone em que julgamos ter regredido ao tempo em que usámos fraldas. E ainda por cima dói. É possível que esta prática só se torne absolutamente confortável após algumas tentativas, se é que alguma vez tal ocorrerá. A melhor opção para a tornarem tolerável é efetuarem a inserção apenas até onde conseguirem e, em vez de grandes patifarias, limitem-se a movimentos curtos, sem grande amplitude e, sobretudo, comuniquem! Se vos for somente viável inserirem a glande (cabeça do pénis), por motivos de desconforto maior, é isso mesmo que devem fazer. Talvez de próxima já vez seja possível mais um centímetro. Já vi razões piores para tatuar uma régua no local.

Manual para avançados
Quando a prática de sexo anal se dá espontaneamente e os níveis de ambivanalência são já risíveis. Só tenho uma dica. Nunca mas mesmo nunca praticar sexo anal e ingerir mexicano genuíno, nessa ordem, a não ser que queiram promover a autocombustão espontânea com foco de ignição esfincteriano. Quem diz mexicano diz qualquer coisa picante e clandestina lá para os lados do Martim Moniz que a vossa herança genética seja incapaz de metabolizar e obrigue à expulsão célere. E ardente.