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Há uma vida atrás escrevi um texto a chamei “Porque é que o sexo acaba quando ele se vem?”. Uns tempos depois publiquei uma versão do mesmo texto em português do Brasil na revista Obvious. Este terá sido, de longe, o meu texto que chegou a mais pessoas. Uma razão evidente para isto é o facto de ter sido publicado num país de dimensões continentais. Claro que também gosto de pensar que o texto tem o seu interesse. Reler coisas antigas é sempre agridoce, porque provavelmente sentimos que as escreveríamos melhor. Por outro, a inocência também pode ser deliciosa. Sinto que a minha visão sobre o sexo e o feminismo já evoluiu muitíssimo desde que escrevi o texto abaixo, a minha escrita também (mas no sentido de acomodar um híbrido anglo-saxónico). Contudo gostaria de voltar a partilhar este texto e, possivelmente, que alguém me responda à premissa inicial – porque acaba mesmo? Comentários escarninnos acerca do meu “brasileiro” aceitam-se.

Durante a atividade sexual a maioria dos casais heterossexuais tende a seguir um roteiro. Normalmente um dos elementos inicia comportamentos como acariciar ou beijar que, no caso de percepcionar disponibilidade sexual do outro, são sucedidos por atos progressivamente mais erotizados até à estimulação oral ou digital dos genitais. Dá-se então início à penetração e, eventualmente, aos orgasmos feminino e masculino. Refiro-me às fases da resposta sexual de desejo, excitação, orgasmo, patenteadas no modelo de Helen Kaplan (1974, 1979), uma evolução do de Masters e Johnson (1966, 1970). Menciono este modelo e não outro por este ser aquele que se encontra na base da categorização das disfunções sexuais dos manuais de diagnóstico americanos e europeus. Apesar de esta sucessão de fases da resposta sexual ser frequentemente discutível resume o que é tido como expectável, isto é, que a atividade sexual cessa quando o homem ejacula e que a ejaculação é o desfecho natural de uma transa.

A verdade é que a ideia de que a ejaculação finda a relação sexual é uma norma pré-estabelecida sobre a qual não refletimos muito. Há vários motivos para que assim seja, sendo que o mais óbvio é evolutivo. Sem emissão de esperma não há reprodução e inviabiliza-se a continuidade da espécie. Contudo, grande parte da atividade sexual visa somente o prazer e não inclui fins reprodutivos – o que poderia pôr em causa semelhante convenção, mas não são observados sinais nesse sentido.

Atente-se que, por vezes, as relações sexuais terminam sem que se dê o orgasmo feminino, sendo que tal é legitímo e não acarreta necessariamente frustrações. Já terminar uma relação sexual logo após o orgasmo da mulher e sem o equivalente masculino parece ilógico ou irrazoável – mas não é (ou não deveria ser). Pelo menos não numa perspetiva de igualdade de gênero.

O modelo de resposta sexual foi construído à imagem masculina e impõe um cânone, fruto de centenas de anos de limitação do poder das mulheres e que quer homens, quer mulheres foram responsáveis por manter ao longo dos tempos. Os homens impõem, as mulheres cumprem, o sistema alimenta-se. Porquê? De acordo com Hyde e Durik (2000), as mulheres, por possuírem menos poder, modelam e adaptam mais o seu comportamento do que os homens, detentores de poder. Este ajustamento que implica, como já vimos, uma discrepância de gênero, é notório no campo da sexualidade. Foi tão bem concebido e está tão intrincado na forma como se processam os relacionamentos que é aceite acriticamente. A ideia de cessar uma prática sexual apenas porque a mulher já obteve um orgasmo afigurar-se-nos como simplesmente bizarra. Mas será?

Já foram apontadas algumas causas: evolução, disparidade de poder entre gêneros, modelagem de comportamento (com subjugação ao prazer masculino). Pode acrescentar-se mais uma – a culpa. A eterna culpa judaico-cristã que postula que o prazer, sobretudo o feminino, é uma coisa feia. A culpa, aliás, pode ter um papel importante no desenvovlimento de disfunções sexuais femininas de acordo com o modelo de Pedro Nobre (2003).

O ideal é talvez o orgasmo simultâneo. Uma vez que tal não ocorre sempre, seria lícito que nuns dias fosse para ele e noutros para ela. No entanto, até o exercício de imaginar uma transa sem ejaculação é custoso, como se fosse contra a sua própria definição. É nonsense, um devaneio de sonhadores.

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Não publiquei neste blogue durante mais de um ano, o que não quer dizer que não tenha escrito aqui e ali. Passei a colaborar numa “rede de curadoria sustentável”, A MONTRA / THE WINDOW, e esbocei uns quantos textos novos. Acabei por nunca os publicar porque não lhes encontrei nenhum fim digno (o que é algo particularmente pretensioso para alguém que não escreve). Pensei então em matar este blogue. Uma vez mais, preocupada com a dignidade da coisa, refleti: “posso pegar nos textos melhorzinhos e tentar publicar (e depois mato isto)”, pelo que os reli a todos. Processo traumático este, já que me confrontei com o meu próprio lixo. Não encontro um todo coerente publicável, mas confesso que me voltei a rir com alguns posts. O que publico de seguida foi uma compilação de texto antigos, com que me inaugurei n’A Montra. A ilustração, como sempre, é da Filipa Pinto.

Maravilhas da vida a dois

Os níveis de intimidade evoluem. Inicialmente o simples facto ruidoso do embate da urina nas paredes de loiça sanitária parece uma catástrofe que tentamos evitar soterrando a mesma de papel higiénico, experimentando danças desequilibradas em busca daquele local específico em que cada sanita permite escorrimento ao invés de soar em jato, ou procurando separar o xixi em vários xixizes sumidos e muito pouco satisfatórios. Felizmente isto passa.

Depois do primeiro xixi vem o primeiro acordar, se é que dormiram efetivamente. Para pessoas como eu, com necessidades muito especiais ao nível da luminosidade e temperatura, no máximo percorreram hiperativamente sonhos desconexos em que a consciência corporal de se encontrarem numa cama estranha nunca vos abandonou. Depois “acordam” e se forem do estilo amoroso dão beijinhos. Péssima ideia, considerando o ecossistema pestilento que marinou durante a noite em cada cavidade bucal. Se foram céleres o suficiente provavelente conseguiram escapulir-se para esfregar pasta de dentes do parceiro/a e bochechar, fingindo que aquele forte gosto mentolado é a vossa fragrância natural. Talvez até o tenham feito ambos, prevendo práticas matinais, dando início à beijaria como se não reparassem na bizarria que é ter a boca fresca debaixo de lençóis às 8h da manhã.

Mas as desatenções multiplicam-se, como aquele primeiro pum que vos traz das profundezas da sonolência para a realidade crua do silêncio ensurdecedor que é o de tentar averiguar se todos os envolvidos despertaram ou se apenas o emissor de gás. Qualquer alteração respiratória conta. A tensão instala-se, esperam-se movimentos delatores de reconhecimento da emissão cheirosa e o cérebro grita um quase audível “Merrrrrrrrrda! Porquê?” (já lá vamos também). Se tudo correr bem os implicados fingirão não dar pela ocorrência e, brevemente, aperceber-se-ão da diversidade de vocabulário existente à disposição para designar a flatulência humana – pum, peido, bufinha ou outro qualquer nome queriduxo –, adotando uma expressão que aprouver a ambos ou continuando a ignorar incidentes semelhantes.

E há um nível acima, o derradeiro. Cocó. Não há como negar que este é um aspeto importante da vida a dois. Da vida de qualquer um, aliás, mas, por razões diversas, até se dar o seu reconhecimento como atividade mundana o casal passa por um processo de dessensibilização sistemática (em que são efetuadas aproximações sucessivas ao ato de evacuar até este ser finalmente aceite). O processo pode ser muito célere ou muito moroso. Alguns, mais despreocupados, conferirão ao ato de defecar exatamente o estatuto de banalidade que merece. Outros comportar-se-ão como se fosse um ato sagrado que deve desenvolver-se em total privacidade e com desconhecimento do parceiro, sobretudo quando se trata de uma mulher – toda a gente sabe que as mulheres não fazem cocó. Claro que há sempre a terapia de choque, mas vou abster-me de descrever para proteger os leitores sensíveis.

Falta agora encarar a sexualidade real. O nível de frequência cai drasticamente e as práticas orais matutinas ficam sagradas a ocasiões especiais. Especialíssimas. Já que as imposições laborais voltam a importar e a apresentação de uma autoimagem de hipersexualidade deixa de preocupar. Esta adequação de expetativas ocorre naturalmente e é concomitante com o desenvolvimento de outros hábitos.

Passa a dormir-se de pijama, o que é um alívio. Bem sei que dormir nu ativa a produção de não sei o quê – não vou atestar a veracidade da informação –, que é muito positivo para a sensualidade e até melhora a qualidade do sono. Muito bonito, sobretudo se for numa sesta encalorada de Verão, mas a perspetiva de sentir penugem do meio das costas a mover-se ao ritmo da expiração alheia é o suficiente para me pôr já com insónias.

Fazer sexo evolui para fazer amor. Passa, inclusivamente, a ser ofensivo designar o ato de forma a não explicitar uma jura eterna. E partilham e curam-se doenças lado a lado, inclusivamente as genitais. O recurso ao Gino-Canestan (cujo prefixo leva a pensar erradamente que a aplicação tópica se processa somente em vulvas), esse ato carregado de lascívia, é elevado a conversa de cabeceira, como se a convivência de estados gripais não fosse já suficientemente desaprazível.

***Artigo original aqui.

Parece que tenho que ter uma conta premium para partilhar videos. Até lá:

Zen

Parei de escrever há um ano, constato. Pouco leio também, se excluirmos todas as “policies” e “procedures” que a Implementação atualiza freneticamente. Não sei quanto às outras empresas mas o meu querido call-center anglo-saxónico “implementa” sempre qualquer coisa naquele dia em que sinto que apreendi a anterior. Um pouco como os iphones quando nos obrigam a fazer um update quando finalmente os esvaziámos de fotografias e aplicações obsoletas. Creio piamente que a lentificação extrema deste artefacto que uso como extensão braçal só pode mesmo constar de um plano Superior para o treino de resistência à frustração.

Continuando. Há dias em que sinto que o meu cérebro implodiu e só oiço um beeeeeeeep contínuo. Stress, dizem. Mas não faz mal porque isto só acontece em dias de intenso multitasking. Coisa de  mulher, dizem (e eu discordo vivamente). O meu cérebro, ao longo destes dois anos, parece ter ficado perdido num vortex linguístico, em que português, inglês e até o portunhol se fundiram num híbrido sofrível. Esta e outras  constatações têm contribuído  para a cisma filosófica prolongada sobre a existência humana. Qual o propósito da vida se pouco sobra de trabalhar?

Não vou responder à questão acima porque entraria necessariamente em terreno nebuloso cujo desfecho possível seria tão somente a depressão – e para buracos negros já chega o estado lastimável deste blogue.

Este será o meu único post de 2016 mas é um post cheio de promessas para 2017. Vou voltar à carga porque não me perdoo se abandonar isto. “Isto” leia-se o Pronto a Despir, em que tanto investi. Mas para tal preciso de aceder a ideias, angústias, preocupações, testemunhos – portanto escrevam-me sempre que desejarem. Por uma questão de preservação da realidade nao vou fazer vãs promessas ao nível da regularidade ou qualidade da minha escrita, mas posso prometer posts mais frequentes sobre sexo, mesmo que da autoria de outrem. Em 2017 vou fomentar um estilo menos perfecionista (e procrastinador) e apostar na divulgação diversificada.

Ler-me-ão em breve, prometo.

Leonor

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Ando a tentar ressuscitar o blogue do mundo dos mortos. Passando os olhos nos muitos posts que deixei a meio, apeteceu-me pegar neste. Pretendo contar-vos como cresci a olhar para a homossexualidade.

Não tenho grandes memórias de o assunto me ser explicado mas vislumbrei-o na minha infância. Lembro-me que quando o meu pai trabalhava na Grande Noite (sim, essa – podem cantar “grande noite, grande noite / hoje vai ser a grande noite!”) conheci o João Baião. O apresentador do inesquecível Big Show SIC forçou uma expressão de desiludida surpresa por conhecer os espécimes da descendência do, à data, assistente de realização. Foi talvez a primeira vez que me lembro de reconhecer que alguns homens gostavam de homens, e não de mulheres. Envergava um fato de lantejoulas o que me deve ter levado a concluir que era coisa das pessoas do mundo do espetáculo. Talvez tivesse 7 ou 8 anos (a minha mãe corrigir-me-á se for o caso, assim que ler este post).

Na entrada da adolescência o conceito foi-se complexificando, nem sempre da melhor forma. Lembro-me do R., que descolorava o cabelo e usava calças de mulher, só se dava com raparigas e a quem chamavam obviamente “paneleiro”. Ou da F., mais tarde [o] M., que aos 13 anos rapou o cabelo e se fazia sempre acompanhar de uma bola de futebol e parceiros para jogar. Para mim, o R. era certamente gay, já a F. (na altura ainda a pensava mulher) deixava-me extremamente confusa. Pairavam atrás de si sentimentos de estranheza e desconforto na origem de teorias sussurradas acerca da sua homossexualidade latente, que certamente a motivaria A aproximar-se de raparigas disfarçada de rapaz. Claro que me bastaria ter reparado como os seus piropos me agravavam a feminilidade para ter alguma luz sobre o assunto. Só um homem particularmente homem me faria sentir tão vulnerável e assediada (tão mulher). F. não era lésbica, era um homem trans heterossexual. Como teria sido útil a todos os envolvidos termos tido aulas de educação sexual…

Depois veio o secundário e o idealismo juvenil. Claro que defendi os direitos dos gays! (E a despenalização do aborto) — Não esquecer que cresci num melting pot privilegiado à esquerda — Já das lésbicas não me lembro muito bem. Mas não sou só eu. Curiosamente o mundo continua a esquecer-se delas, é só entrar num festival Queer e comprovar. Suponho que o facto de serem mulheres as torna à partida desinteressantes e invisíveis.

Cheguei à Faculdade de Belas Artes em 2004. Aí é que foi. Imersa na permissividade elitista do meio artístico tive efetivamente contacto com pessoas de todas orientações sexuais, até bissexuais, vejam lá. E uma nota: não havia melhor que as Festas da Anita com Bandidos Desesperados nos discos – e de cuecas abaixo das nádegas. Por esta altura o meu reconhecimento das várias orientações já não era mau.

Eventualmente lá veio a Psicologia e um namorado católico. Eu, que até estava no bom caminho, regredi no que toca a estes conceitos. A culpa não foi do namorado, devo dizer, foi mesmo do curso. Começa por discutir-se o que é inato e o que é desenvolvido e num ápice aprendemos que a homossexualidade é culpa da mãe e que não há bissexuais de verdade. WOW. Outra vez: WOW. Assim se compreendem as origens das teorias populares que postulam que “os gays são meninos da mamã” e que “os bissexuais são gays dentro do armário”.

O mais decisivo foi trabalhar num restaurante mexicano no Soho, em Londres. Acho que existirão poucos locais mais queer. Heterossexuais “puros” escasseavam e a diversidade era a norma entre tacos, guacamole e margaritas (sobretudo entre margaritas). Lembro-me de uma vez ter ido beber uma pint a um Pub vitoriano em Little Venice com a L., que me disse com o seu inglês madrileno “Se eu podia aprender a gostar de sexo com homens? Provavelmente. Mas porque é que haveria de o fazer?”. Esta elaboração, muito simples aos olhos dela, foi para mim um daqueles momentos em que se alinham quatro pares de cerejas numa slot machine e se ouve “tlim tlim tlim”.

A orientação sexual, isto é, a preferência por determinado objeto sexual, até pode oscilar. Muitos de nós são relativamente fluidos e movimentam-se no espetro da sexualidade ao longo do ciclo de vida (prefiro contínuos a categorias). Mas não pode mudar, isso não. Pelo menos não por influência externa.

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Nunca escrevi sobre contraceção porque sentia que era um tema demasiado “feminino” mas, em boa verdade, devia ser um tema quente, tanto para aquelas que evitam preenchimento uterino com milagres de multiplicação celular, como para aqueles que se deitam com elas (independentemente da frequência).

Nem sei bem por onde começar, até porque tenho já um historial longo de maus tratos nos serviços médicos dessa Lisboa fora.

O preservativo, também conhecido como o malfadado saco de plástico que estrangula o prazer masculino e fricciona desagradavelmente o feminino, é a única hipótese verdadeiramente adequada para a maioria e encontra-se disponível no mercado livre. Claro que, pela sua desagradabilidade ao toque é frequentemente preterido, sobretudo por monogâmicos em série (tipo eu).

É prática comum, quando nos encontramos numa relação monogâmica de compromisso, ascendermos à contraceção hormonal. Tal comporta um significado bonito: confiamos um no outro, não transportamos doenças (porque, obviamente, já permitimos que nos extorquissem sangue para a testagem necessária) e podemos amar-nos livremente, sem artefactos de latex. UMA MERDA. Qualquer pessoa que já tomou a pílula percebe, possivelmente, do que estou a falar.

Ora a pílula combinada de progesterona e estrogénio é uma coisinha simples. Ingere-se um comprimido por dia durante três semanas e interrompe-se por uma semana, para fazer a sangria de manutenção habitual. Tudo bem. Tirando, obviamente, aquelas mamas aumentadas que se lhe sucedem logo após uma semana de toma. Fixe, não é? Mamas grandes e tal. Nope. Sucede-se a retenção de líquidos, a celulite e, muito provavelmente, a aquisição de calças do número acima. Às alterações corporais descritas seguem-se outras, nomeadamente ao nível do desejo sexual. Portanto, engolimos hormonas para poder fazer sexo e depois, ups, não queremos fazer sexo. Se tiverem o azar de deprimir e necessitarem de medicação, nem se fala. Pílula + Antidepressivos é aquele combo fatal de anorgasmia feminina. Além disso, a minha médica do planeamento familiar (que prezo muito) disse-me em confidência, no outro dia, que se salvam casamentos só por retirar a pílula! Eu arriscaria dizer que se salvam vidas, a avaliar pelo mau humor e pela total falta de resistência à frustração que me ataca nas eventualidades da toma estrogénica. É que uma pessoa fica com vontade de morrer ou, mesmo, de matar outro. A minha sábia amiga MT disse-me no outro dia que, na dúvida, é melhor que mate alguém. (Também gosto muito de ti MT).

Então, o que fazer? Há outras opções. Eu própria fui fã do implante contracetivo, que é uma espécie de pau de chupa-chups que é colocado no nosso braço esquerdo com um agulhão assustador e que nos dá a nossa dose diária de progesterona (parece mesmo um pau de chupa-chupa, branco, fino e oco). Para pessoas com impulsos auto e hétero agressivos quando estão a dar no estrogénio é uma boa opção. E baratinha também, já que se se colocar no Centro de Saúde são 0€ durante 3 anos. Forreta como sou, ninguém precisou de me convencer. Não aumentei de tamanho; contudo, uns anos depois tornei-me uma pessoa desregulada (não da cabeça, acho que por aí continua tudo certo) e tornou-se impossível. Removi o chip e já não pertenço aquela classe de pessoas tipo ciborgue, qual Dana Scully quando os alienígenas lhe introduziram um para ter acesso a informação terráquea privilegiada.

E aqui me encontro, livre de hormonas circulantes falsas, procurando evitar os olhares emprenhadores da família e amigos. Quem conseguir ajudar-me com isto, por favor fale agora! É que, por mais que num mundo utópico não fazer contraceção pareça uma ótima ideia, o meu espírito controlador não o permitirá ad eternum.

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Trabalho ao telefone com pessoas de todo o mundo que procuram apoio psicológico. Ligam-me poucas vezes por questões exclusivamente sexuais mas muitas em consequência de problemáticas diversas do matrimónio, num espetro que se estende do incumprimento das tarefas domésticas até, claro, à traição. Esse flagelo relacional. Ligam-me porque não conseguiram ultrapassá-la, porque gostariam de fazê-lo ou por culpabilidade. Já assisti tanto ao término como ao progresso conjugal no seguimento destes adventos. Já empatizei quer com traídos, quer com traidores, sem grandes diferenças na minha modulação emocional. A verdade é que não estamos livres de ser um ou o outro, mesmo que assim julguemos.

Sobre a traição

A traição tem muitos feitios. Aconselho o TED Talk da Esther Perel para aqueles de adesão fácil ao trabalho de casa. E. Perel, terapeuta de casal, conta-nos que adultério destrói a nossa segurança emocional e noção de “eu” – que é como quem diz implode-nos autoestima e, como se não bastasse, ainda desafia tudo o que sabíamos sobre nós e sobre o mundo. Um bocado como perceber que não existe Pai Natal ou Deus ou, pelo contrário, que existem marcianos ou assim. É traumático. Deixamos de existir como seres dignos de amor para nos tornarmos numa amálgama de dúvidas do género “O que foi que fiz?” e de certezas como “Se ao menos eu lhe tivesse feito um broche de vez em quando…”. Sim, porque toda a gente sabe que os homens traem por falta de sexo. Por outro lado, e se adotarmos o mesmo nível de compreensão dos fenómenos, eu arriscaria explicar a traição feminina como resposta ao mau sexo, não pela ausência de. (Reparem como é impactante terminar uma frase com uma preposição). Mas vamos tentar não resumir tudo ao sexo.

Então, porque é que as pessoas traem? Na lógica popular as pessoas traem porque não são felizes, porque “lhes falta qualquer coisa”. Nas teorizações dos psicólogos e terapeutas familiares, da Psicologia Sistémica, as pessoas traem porque já foram “traídas” antes, isto é, porque já houve um investimento noutra área de vida ou relação privilegiada. Defendem, no fundo, que à traição sucede sempre outra traição – com o trabalho, com os filhos. Esther Perel diz outra coisa, diz que numa traição não estamos a voltar as costas ao nosso parceiro/a, estamos a fugir da pessoa em que nos tornámos. Como se estivéssemos tanto à procura de outrem como de um eu novo (ou antigo). Só há um pequeno problema: é que isto de deixarmos de ser “eu” tem tanto ou mais a ver connosco mesmos do que com qualquer outro. Daí que os nossos amigos, e até nós próprios, em lapsos de brilhantismo, defendamos “Tens é que estar sozinho, até para perceberes o que queres”. Uma lógica clara e indiscutível com um pequeno senão… É que nunca deixamos de nos ver pelos olhos dos outros. Por isso é que é positivo rodearmo-nos de pessoas fixes. E ainda há outra: tendemos a procurar outros que nos olham com os nossos olhos. Bela bosta, a existência humana.

 Mas ainda há o amor

Como estou contaminada pelo discurso pessimista acima, vou começar por referir que não acredito em almas gémeas predestinadas ou em outro tipo de desígnios inexoráveis. Tal comporta questões. Se não creio num outro à minha imagem ou complementar – ou o que quer que seja uma alma gémea – ou é porque 1) não existem ou porque 2) existem muitas. A avaliar pela quantidade observável de matrimónios talvez a segunda opção seja mais realista. Ora, se há uma infinidade de possibilidades para mim, estas também não se esgotam na minha pessoa para a minha outra metade, que pode muito bem desapaixonar-se, enamorar-se, trair… Se pensarmos muito no assunto é bem provável que soframos uma apoplexia. Mas, como me preocupo com a esperança de vida, vou focar-me no outro lado da coisa: quando alguém decide estar connosco significa que preteriu os outros 6 mil milhões. O facto de tal não ser a consequência de um alto desígnio cósmico e sim da livre escolha de alguém é incrível. É-o, sobretudo, porque não somos “especiais” para outro porque alguém intercedeu por nós, somos simplesmente escolhidos apesar dos outros, frequentemente mais belos e mais espertos. Não sei bem onde quero chegar com esta conversa mas julgo que a ideia fundamental é que gostaria que as pessoas se preocupassem menos com a traição e reparassem mais no amor. Outro bom trabalho de casa seriam visualizarem um outro TED Talk, da Helen Fisher, porque sei que hoje já me estou a exceder na verborreia Carrie Bradshaw.