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Parece que tenho que ter uma conta premium para partilhar videos. Até lá:

Zen

O primeiro dia do ano pode muito bem ser o mais preguiçoso, sobretudo se coincidir com um domingo. Imagino parceiros em todo o mundo a recuperar das festividades entre o sono e o amor. Este é um dos pequenos filmes da revista Nowness da série “Sex and Sensibility”. Bom ano aos que se amam a si e aos outros neste início de 2017.

Parei de escrever há um ano, constato. Pouco leio também, se excluirmos todas as “policies” e “procedures” que a Implementação atualiza freneticamente. Não sei quanto às outras empresas mas o meu querido call-center anglo-saxónico “implementa” sempre qualquer coisa naquele dia em que sinto que apreendi a anterior. Um pouco como os iphones quando nos obrigam a fazer um update quando finalmente os esvaziámos de fotografias e aplicações obsoletas. Creio piamente que a lentificação extrema deste artefacto que uso como extensão braçal só pode mesmo constar de um plano Superior para o treino de resistência à frustração.

Continuando. Há dias em que sinto que o meu cérebro implodiu e só oiço um beeeeeeeep contínuo. Stress, dizem. Mas não faz mal porque isto só acontece em dias de intenso multitasking. Coisa de  mulher, dizem (e eu discordo vivamente). O meu cérebro, ao longo destes dois anos, parece ter ficado perdido num vortex linguístico, em que português, inglês e até o portunhol se fundiram num híbrido sofrível. Esta e outras  constatações têm contribuído  para a cisma filosófica prolongada sobre a existência humana. Qual o propósito da vida se pouco sobra de trabalhar?

Não vou responder à questão acima porque entraria necessariamente em terreno nebuloso cujo desfecho possível seria tão somente a depressão – e para buracos negros já chega o estado lastimável deste blogue.

Este será o meu único post de 2016 mas é um post cheio de promessas para 2017. Vou voltar à carga porque não me perdoo se abandonar isto. “Isto” leia-se o Pronto a Despir, em que tanto investi. Mas para tal preciso de aceder a ideias, angústias, preocupações, testemunhos – portanto escrevam-me sempre que desejarem. Por uma questão de preservação da realidade nao vou fazer vãs promessas ao nível da regularidade ou qualidade da minha escrita, mas posso prometer posts mais frequentes sobre sexo, mesmo que da autoria de outrem. Em 2017 vou fomentar um estilo menos perfecionista (e procrastinador) e apostar na divulgação diversificada.

Ler-me-ão em breve, prometo.

Leonor

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Ando a tentar ressuscitar o blogue do mundo dos mortos. Passando os olhos nos muitos posts que deixei a meio, apeteceu-me pegar neste. Pretendo contar-vos como cresci a olhar para a homossexualidade.

Não tenho grandes memórias de o assunto me ser explicado mas vislumbrei-o na minha infância. Lembro-me que quando o meu pai trabalhava na Grande Noite (sim, essa – podem cantar “grande noite, grande noite / hoje vai ser a grande noite!”) conheci o João Baião. O apresentador do inesquecível Big Show SIC forçou uma expressão de desiludida surpresa por conhecer os espécimes da descendência do, à data, assistente de realização. Foi talvez a primeira vez que me lembro de reconhecer que alguns homens gostavam de homens, e não de mulheres. Envergava um fato de lantejoulas o que me deve ter levado a concluir que era coisa das pessoas do mundo do espetáculo. Talvez tivesse 7 ou 8 anos (a minha mãe corrigir-me-á se for o caso, assim que ler este post).

Na entrada da adolescência o conceito foi-se complexificando, nem sempre da melhor forma. Lembro-me do R., que descolorava o cabelo e usava calças de mulher, só se dava com raparigas e a quem chamavam obviamente “paneleiro”. Ou da F., mais tarde [o] M., que aos 13 anos rapou o cabelo e se fazia sempre acompanhar de uma bola de futebol e parceiros para jogar. Para mim, o R. era certamente gay, já a F. (na altura ainda a pensava mulher) deixava-me extremamente confusa. Pairavam atrás de si sentimentos de estranheza e desconforto na origem de teorias sussurradas acerca da sua homossexualidade latente, que certamente a motivaria A aproximar-se de raparigas disfarçada de rapaz. Claro que me bastaria ter reparado como os seus piropos me agravavam a feminilidade para ter alguma luz sobre o assunto. Só um homem particularmente homem me faria sentir tão vulnerável e assediada (tão mulher). F. não era lésbica, era um homem trans heterossexual. Como teria sido útil a todos os envolvidos termos tido aulas de educação sexual…

Depois veio o secundário e o idealismo juvenil. Claro que defendi os direitos dos gays! (E a despenalização do aborto) — Não esquecer que cresci num melting pot privilegiado à esquerda — Já das lésbicas não me lembro muito bem. Mas não sou só eu. Curiosamente o mundo continua a esquecer-se delas, é só entrar num festival Queer e comprovar. Suponho que o facto de serem mulheres as torna à partida desinteressantes e invisíveis.

Cheguei à Faculdade de Belas Artes em 2004. Aí é que foi. Imersa na permissividade elitista do meio artístico tive efetivamente contacto com pessoas de todas orientações sexuais, até bissexuais, vejam lá. E uma nota: não havia melhor que as Festas da Anita com Bandidos Desesperados nos discos – e de cuecas abaixo das nádegas. Por esta altura o meu reconhecimento das várias orientações já não era mau.

Eventualmente lá veio a Psicologia e um namorado católico. Eu, que até estava no bom caminho, regredi no que toca a estes conceitos. A culpa não foi do namorado, devo dizer, foi mesmo do curso. Começa por discutir-se o que é inato e o que é desenvolvido e num ápice aprendemos que a homossexualidade é culpa da mãe e que não há bissexuais de verdade. WOW. Outra vez: WOW. Assim se compreendem as origens das teorias populares que postulam que “os gays são meninos da mamã” e que “os bissexuais são gays dentro do armário”.

O mais decisivo foi trabalhar num restaurante mexicano no Soho, em Londres. Acho que existirão poucos locais mais queer. Heterossexuais “puros” escasseavam e a diversidade era a norma entre tacos, guacamole e margaritas (sobretudo entre margaritas). Lembro-me de uma vez ter ido beber uma pint a um Pub vitoriano em Little Venice com a L., que me disse com o seu inglês madrileno “Se eu podia aprender a gostar de sexo com homens? Provavelmente. Mas porque é que haveria de o fazer?”. Esta elaboração, muito simples aos olhos dela, foi para mim um daqueles momentos em que se alinham quatro pares de cerejas numa slot machine e se ouve “tlim tlim tlim”.

A orientação sexual, isto é, a preferência por determinado objeto sexual, até pode oscilar. Muitos de nós são relativamente fluidos e movimentam-se no espetro da sexualidade ao longo do ciclo de vida (prefiro contínuos a categorias). Mas não pode mudar, isso não. Pelo menos não por influência externa.

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Nunca escrevi sobre contraceção porque sentia que era um tema demasiado “feminino” mas, em boa verdade, devia ser um tema quente, tanto para aquelas que evitam preenchimento uterino com milagres de multiplicação celular, como para aqueles que se deitam com elas (independentemente da frequência).

Nem sei bem por onde começar, até porque tenho já um historial longo de maus tratos nos serviços médicos dessa Lisboa fora.

O preservativo, também conhecido como o malfadado saco de plástico que estrangula o prazer masculino e fricciona desagradavelmente o feminino, é a única hipótese verdadeiramente adequada para a maioria e encontra-se disponível no mercado livre. Claro que, pela sua desagradabilidade ao toque é frequentemente preterido, sobretudo por monogâmicos em série (tipo eu).

É prática comum, quando nos encontramos numa relação monogâmica de compromisso, ascendermos à contraceção hormonal. Tal comporta um significado bonito: confiamos um no outro, não transportamos doenças (porque, obviamente, já permitimos que nos extorquissem sangue para a testagem necessária) e podemos amar-nos livremente, sem artefactos de latex. UMA MERDA. Qualquer pessoa que já tomou a pílula percebe, possivelmente, do que estou a falar.

Ora a pílula combinada de progesterona e estrogénio é uma coisinha simples. Ingere-se um comprimido por dia durante três semanas e interrompe-se por uma semana, para fazer a sangria de manutenção habitual. Tudo bem. Tirando, obviamente, aquelas mamas aumentadas que se lhe sucedem logo após uma semana de toma. Fixe, não é? Mamas grandes e tal. Nope. Sucede-se a retenção de líquidos, a celulite e, muito provavelmente, a aquisição de calças do número acima. Às alterações corporais descritas seguem-se outras, nomeadamente ao nível do desejo sexual. Portanto, engolimos hormonas para poder fazer sexo e depois, ups, não queremos fazer sexo. Se tiverem o azar de deprimir e necessitarem de medicação, nem se fala. Pílula + Antidepressivos é aquele combo fatal de anorgasmia feminina. Além disso, a minha médica do planeamento familiar (que prezo muito) disse-me em confidência, no outro dia, que se salvam casamentos só por retirar a pílula! Eu arriscaria dizer que se salvam vidas, a avaliar pelo mau humor e pela total falta de resistência à frustração que me ataca nas eventualidades da toma estrogénica. É que uma pessoa fica com vontade de morrer ou, mesmo, de matar outro. A minha sábia amiga MT disse-me no outro dia que, na dúvida, é melhor que mate alguém. (Também gosto muito de ti MT).

Então, o que fazer? Há outras opções. Eu própria fui fã do implante contracetivo, que é uma espécie de pau de chupa-chups que é colocado no nosso braço esquerdo com um agulhão assustador e que nos dá a nossa dose diária de progesterona (parece mesmo um pau de chupa-chupa, branco, fino e oco). Para pessoas com impulsos auto e hétero agressivos quando estão a dar no estrogénio é uma boa opção. E baratinha também, já que se se colocar no Centro de Saúde são 0€ durante 3 anos. Forreta como sou, ninguém precisou de me convencer. Não aumentei de tamanho; contudo, uns anos depois tornei-me uma pessoa desregulada (não da cabeça, acho que por aí continua tudo certo) e tornou-se impossível. Removi o chip e já não pertenço aquela classe de pessoas tipo ciborgue, qual Dana Scully quando os alienígenas lhe introduziram um para ter acesso a informação terráquea privilegiada.

E aqui me encontro, livre de hormonas circulantes falsas, procurando evitar os olhares emprenhadores da família e amigos. Quem conseguir ajudar-me com isto, por favor fale agora! É que, por mais que num mundo utópico não fazer contraceção pareça uma ótima ideia, o meu espírito controlador não o permitirá ad eternum.

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Trabalho ao telefone com pessoas de todo o mundo que procuram apoio psicológico. Ligam-me poucas vezes por questões exclusivamente sexuais mas muitas em consequência de problemáticas diversas do matrimónio, num espetro que se estende do incumprimento das tarefas domésticas até, claro, à traição. Esse flagelo relacional. Ligam-me porque não conseguiram ultrapassá-la, porque gostariam de fazê-lo ou por culpabilidade. Já assisti tanto ao término como ao progresso conjugal no seguimento destes adventos. Já empatizei quer com traídos, quer com traidores, sem grandes diferenças na minha modulação emocional. A verdade é que não estamos livres de ser um ou o outro, mesmo que assim julguemos.

Sobre a traição

A traição tem muitos feitios. Aconselho o TED Talk da Esther Perel para aqueles de adesão fácil ao trabalho de casa. E. Perel, terapeuta de casal, conta-nos que adultério destrói a nossa segurança emocional e noção de “eu” – que é como quem diz implode-nos autoestima e, como se não bastasse, ainda desafia tudo o que sabíamos sobre nós e sobre o mundo. Um bocado como perceber que não existe Pai Natal ou Deus ou, pelo contrário, que existem marcianos ou assim. É traumático. Deixamos de existir como seres dignos de amor para nos tornarmos numa amálgama de dúvidas do género “O que foi que fiz?” e de certezas como “Se ao menos eu lhe tivesse feito um broche de vez em quando…”. Sim, porque toda a gente sabe que os homens traem por falta de sexo. Por outro lado, e se adotarmos o mesmo nível de compreensão dos fenómenos, eu arriscaria explicar a traição feminina como resposta ao mau sexo, não pela ausência de. (Reparem como é impactante terminar uma frase com uma preposição). Mas vamos tentar não resumir tudo ao sexo.

Então, porque é que as pessoas traem? Na lógica popular as pessoas traem porque não são felizes, porque “lhes falta qualquer coisa”. Nas teorizações dos psicólogos e terapeutas familiares, da Psicologia Sistémica, as pessoas traem porque já foram “traídas” antes, isto é, porque já houve um investimento noutra área de vida ou relação privilegiada. Defendem, no fundo, que à traição sucede sempre outra traição – com o trabalho, com os filhos. Esther Perel diz outra coisa, diz que numa traição não estamos a voltar as costas ao nosso parceiro/a, estamos a fugir da pessoa em que nos tornámos. Como se estivéssemos tanto à procura de outrem como de um eu novo (ou antigo). Só há um pequeno problema: é que isto de deixarmos de ser “eu” tem tanto ou mais a ver connosco mesmos do que com qualquer outro. Daí que os nossos amigos, e até nós próprios, em lapsos de brilhantismo, defendamos “Tens é que estar sozinho, até para perceberes o que queres”. Uma lógica clara e indiscutível com um pequeno senão… É que nunca deixamos de nos ver pelos olhos dos outros. Por isso é que é positivo rodearmo-nos de pessoas fixes. E ainda há outra: tendemos a procurar outros que nos olham com os nossos olhos. Bela bosta, a existência humana.

 Mas ainda há o amor

Como estou contaminada pelo discurso pessimista acima, vou começar por referir que não acredito em almas gémeas predestinadas ou em outro tipo de desígnios inexoráveis. Tal comporta questões. Se não creio num outro à minha imagem ou complementar – ou o que quer que seja uma alma gémea – ou é porque 1) não existem ou porque 2) existem muitas. A avaliar pela quantidade observável de matrimónios talvez a segunda opção seja mais realista. Ora, se há uma infinidade de possibilidades para mim, estas também não se esgotam na minha pessoa para a minha outra metade, que pode muito bem desapaixonar-se, enamorar-se, trair… Se pensarmos muito no assunto é bem provável que soframos uma apoplexia. Mas, como me preocupo com a esperança de vida, vou focar-me no outro lado da coisa: quando alguém decide estar connosco significa que preteriu os outros 6 mil milhões. O facto de tal não ser a consequência de um alto desígnio cósmico e sim da livre escolha de alguém é incrível. É-o, sobretudo, porque não somos “especiais” para outro porque alguém intercedeu por nós, somos simplesmente escolhidos apesar dos outros, frequentemente mais belos e mais espertos. Não sei bem onde quero chegar com esta conversa mas julgo que a ideia fundamental é que gostaria que as pessoas se preocupassem menos com a traição e reparassem mais no amor. Outro bom trabalho de casa seriam visualizarem um outro TED Talk, da Helen Fisher, porque sei que hoje já me estou a exceder na verborreia Carrie Bradshaw.

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