Cuckholding

“Cuckholding” não é só um insulto popular entre conservadores americanos. É um dos termos mais pesquisados em sites pornográficos. Refere-se a uma fantasia e/ou prática sexual baseada na excitação sexual causada por assistir ou ouvir a parceira com outro. Refiro-me especificamente a parceira (fem.) porque a fantasia é sobretudo popular entre homens hétero. Está muitas vezes ligada a práticas de “hotwifing” (= “wifesharing”), que é mais ou menos a mesma coisa que cuckholding, mas em “hotwifing” o marido pode ser mais ativo e participar na atividade sexual que a esposa tem com outros homens (aproxima-se do swing). Curiosamente, o interesse em “cuckholding” pode até ser mais frequente entre homens conservadores: nos US, não só as pesquisas por cuckholding são mais frequentes em estados conservadores, como a investigação tem mostrado que é uma fantasia mais frequente entre conservadores do que em liberais. Adoro quando são apanhados com a boca na botija (muahahaha). Fun fact, a expressão “cuck” em inglês, que significa “um homem fraco, subserviente à sua mulher” porque os cucos (os passarinhos) têm o hábito de deixar os seus ovos nos ninhos de outras famílias e atirar os outros ovos ninho abaixo – o que significa que há cucos a criar filhos de outros cucos. Daí que o Trump quando abre aquele trombone para maldizer um adversário tenha sempre “cuck” na ponta da língua.

O popular Dan Savage durante vários anos assumiu “cuckholding” como uma fantasia que só assolava heterossexuais. Ele explicava tal fenómeno com o facto de entre homens gay ser uma prática tão comum que nem gerava preocupação. Eis se não quando, começou a receber emails de ouvintes gay que começavam a demonstrar a mesma fantasia. Estávamos no ano de 2016. Pois é, quando o casamento gay foi legalizado nos US. Curioso, não é? Quando o casamento é aprovado, as fantasias com outros passam automaticamente para a clandestinidade. E podemos pensar novamente nos homens conservadores americanos: quando mais condenável e tabu, mais excitante.

Pergunto-me se à medida que a não monogamia consensual e ética se infiltrar nas práticas mainstream se as fantasias de cuckholding irão desaparecer (não entre republicanos que invadem o Capitólio, claro).

Para mais info sobre “cuckholding” aconselho que procurem os trabalhos de Justin Lehmiller e David Ley!

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Masculinidade tóxica

Fala-se muito de masculinidade tóxica mas não sei se é claro para toda a gente o que significa. A primeira coisa a saber é que masculinidade tóxica e machismo não são a mesma coisa, apesar de terem origens semelhantes. Enquanto machismo, de forma extremamente simplificada, se refere à crença consciente ou inconsciente de que os homens são superiores às mulheres e que, consequentemente, há tarefas e/ou posições laborais ou sociais que não devem ser desempenhadas por estas, estando na base de comportamentos de discriminação e opressão das mulheres; masculinidade tóxica remete às expetativas estereotipadas e socialmente construídas do que é ou deve ser um homem  – alguém forte (ou abrutalhado?), autónomo (ou autocentrado?), assertivo (ou agressivo?) e sexual (ou hipersexual?) – que estão na base da opressão tanto das mulheres, devido ao machismo, como dos homens que possam não apresentar estas características que, convenhamos, são muitos. Tanto o machismo como a masculinidade tóxica têm os mesmos princípios base: o poder, ou a manutenção do poder masculino ou patriarcal, e o binarismo de género (a noção de que há apenas dois géneros que são biologicamente definidos e que acarretam consigo características específicas). Isto é uma forma muito, muito superficial e pessoal de explicar estas duas coisas. É uma simplificação de algo muito maior e complexo mas de que eu faço sentido assim. Espero que ajude a compreender melhor as diferenças entre estes dois conceitos que andam aí na boca to mundo.

Intersexo

Há uns anos o meu pai voltava do Queer Film Festival Lisboa algo atónito com a noção de “intersexo”. Por breves instantes trocámos de papéis: ele ouviu, eu doutrinei. Conheço de perto a sensação de me deparar com um fenómeno novo que, normalmente, não tem nada de novo, é só novo no meu armazém de conceitos. Nessas alturas sou obrigada à reorganização das verdades que me vão habitando. Às vezes encontro uma verdade que despeja todas as outras, tipo “o género não é binário”, que não mais permite que noções categóricas de masculino-feminino me habitem. Outras vezes, visitam-me outras verdades que eu deixo entrar e passam a coabitar-me numa existência harmoniosa e progressivamente mais complexa. “Intersexo” é uma destas verdades.

O termo intersexo descreve pessoas diversas que nasceram com órgãos sexuais que não encaixam nas definições binárias de sexo, isto é, de feminino e masculino. Neste sentido não é uma identidade género, mas pode ser (fiquem comigo). Quando digo que não é uma identidade de género refiro-me ao facto de reportar a uma variação biológica e não à identidade que a pessoa escolhe para si. Esta já sabemos que tem variação ilimitada – mulher, homem, transgénero, não binário, trans, e por aí fora. Por outro lado, uma pessoa pode ser assignada intersexo à nascença e não adotar uma identidade intersexo, tendo preferência por uma identidade binária ou outra. Se a pessoa se revir como intersexo, então falar de identidade intersexo. Não é por acaso que há um “i” em LGBTQIA+. Portanto, “intersexo” refere-se tanto a uma identidade, como a uma variação da biologia de base cromossómica, hormonal ou fenotípica. Percebam, no entanto, que a biologia é tão verdadeira como qualquer outro construto social. Sim, a biologia é um construto social (não desistam). Em nome da biologia, as pessoas intersexo foram, e ainda são, sujeitas a todo o tipo de atrocidades médicas por forma a ser “corrigidas”. Estas cirurgias são efetuadas sobre bebés e crianças intersexo para que passem a apresentar a genitália do sexo feminino ou masculino, sem que haja qualquer forma de prever que a pessoa em questão vai adotar o género em que a transformaram. Isto é assumir, como já sabemos, que só há duas formas de existir que são legítimas (uma menos legítima que a outra, claro está, mas isso é outra conversa).

A Organização Mundial de Saúde estima que entre 1 a 4% da população mundial seja intersexo. Não são poucas pessoas. É importante que nos familiarizemos com esta e tantas outras formas de diversidade sexual humana e que continuemos a desafiar as nossas noções de género. No espetro da sexualidade tem de haver lugar para todxs (ou todes).

Body wand

A wand é talvez o brinquedo sexual mais revolucionário de todos os tempos. Foi inicialmente comercializado como massajador corporal e conseguiu imiscuir-se nas habitações de donas de casa desesperadas dos anos 60/70 um pouco por todo o mundo, numa espécie de hacking ao patricardo. No fundo, é um vibrador disfarçado de utensílio doméstico. Vendia-se, aliás, por catálogo, como tanta outra parafernália para o lar. Se forem ao site da La Redoute ainda lá anda. Tem uma forma pouco fálica para sextoy e uma cabeça vibratória potentíssima. É de ligar à corrente, apesar de também haver versões a pilhas (menos potentes). Serve apenas para estimulação externa, ok? Alivia a tensão ao nível do clitóris, vulva, trapézio, deltoides, o que quiserem. Afinal, é um massajador. Contudo, por mais que aprecie o contexto histórico deste aparelho, não sou fã, o que sinto ser quase uma desfeita feminista ao dito. É de uma intensidade que me deixa dormente. Pergunto-me se serei a única.